idade: 29

quando me apaixonei pela primeira vez, o mundo ao meu redor não parou de andar como manda o clichê.

pelo contrário: os relógios continuaram girando seus ponteiros incansável e tediosamente, suas engrenagens trabalhando, e as pessoas continuaram subindo e descendo as rampas, me esbarrando; eu mesma me movi: fui ao seu encontro, as pernas andando por vontade máxima. meu rosto se moveu, músculos contraindo em um sorriso atabalhoado.

meu primeiro amor à primeira vista aconteceu foi mesmo à segunda vista e é certo que, nela, o tempo não parou de correr… pelo contrário! ele era a melhor coisa a me acontecer em anos e tudo passou foi mesmo muito rápido. mal cheguei e te vi, acenei, nos aconchegamos em prosa. e logo era noite, e o calor sufocava e o último trem passava. hora de ir embora, mas ainda tínhamos assunto por horas a fio, suficiente para adentrar madrugadas. duas pessoas se conhecendo, com estranheza, mas encanto… ah! se ao menos pudéssemos estar (mas não podíamos). você se foi no último minuto do portão fechar.

não trocamos contatos de primeira, eu e meu primeiro amor, mas nos vimos todos os dias a fio por muitos anos, e ficamos juntos entre beijos e tapas, na saúde e na tristeza e na ressaca, em desencantos, babaquices, plenitude e brigas épicas. equilíbrio de maré baixa e barcos emborcados.

e, depois de passados quatro anos de primeiras vistas, acabou o amor e não ficamos amigos, não nos entendemos. não houve conto de fadas nem desejos amigáveis. terminamos na cama, aos prantos e com rancor, para nunca mais nos vermos nem nos falarmos. desejei ao meu primeiro ex-amor o pior, e que o tempo voltasse para que nunca tivéssemos trocado uma só palavra.

***

quando me apaixonei pela segunda vez, o planeta terra também não saiu do eixo nem o tempo parou. os números de cristal líquido do meu relógio mudaram e mudaram e mudaram até tocar o alarme das 18h por dias. passaram-se semanas, das quais me lembro de tudo com uma vivacidade irrisória e uma melancolia que arrebata.

na verdade, como o primeiro, esse amor também não aconteceu à primeira vista. se posso confessar, nem me lembro quando vi meu segundo amor pela primeira vez. foi um encontro desses qualquer, de qualquer terça-feira, em qualquer birosca lotada e em uma mesa cheia de amigos de amigos e desconhecidos em geral, pontuados pelo barulho e a irritação usuais.

meu segundo amor à primeira vista veio lá para a quarta, quinta ou décima vista – não sei, não contei. veio depois de alguns anos, depois de uns muitos encontros e outros tantos desencontros mais, entre palavras trocadas ao pé do ouvido, dedos passados pelos cabelos e desejo latente, desconexo, como ruído de rádio. veio de um beijo trocado sem língua e uma promessa, época essa quando eu já era mais velha, e mais exigente – veio quando eu já estava despida de conceitos e preconceitos e literaturas românticas infantojuvenis idílicas de baixa qualidade.

ele não veio como soco. veio como uma luta de vários rounds, da qual até hoje não foi declarado vencedor. veio de suor, sonho e cansaço. por isso, de clichê, obviamente, não teve nada: o universo não desacelerou nem mudaram as dimensões. foi arrebatador sim, mas não como susto… não como em José de Alencar, ao giros e arrebates, numa dança de véus e vestidos de uma única noite. ninguém desfaleceu de emoção, nem de coração acelerado; veio o amor sem tontura nem pressão baixa, sem o medo da criança que sua frio em frente à queda da montanha-russa.

sem abismos.
(esses, reservamos para mais tarde, no estilo de tombos de paixão, ciúme e outros embaraços).

meu segundo amor veio com calma, dando tempo ao tempo, como um dulçor espesso de melaço: lento e quente como uma tarde de verão antes das chuvas de março. foi chegando a passos lentos, pingando e adentrando, como goteira, cada célula, em cada gesto e cada passo – satisfatório e apreciado como uma refeição com vários pratos. seguiu correndo nas veias, sem contos e poemas afobados, mas com rotina e em cada risada.

[e como foi dado cabo? bem, isso agora não vem ao caso. só é necessário saber que sim, está terminado,

que não há capítulos mais.]

Advertisements

now, your turn!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s