madrugada adentro.

a metáfora é antiga e gasta, mas a luz dali é realmente como um oásis no deserto. a hora no relógio já marca muito além do combinado e mais ainda do aceitável para a chave estar na fechadura da porta de casa. mas agora é tarde: a decisão foi tomada, o rumo traçado – precisamos esticar a noite, encontrar os vapores que nos movem, desbravar a cidade do mesmo jeito antigo que faziam dos sábados os dias mais fantásticos. então, depois de fechar bar após bar na Lapa, andamos muitos e muitos quilômetros de asfalto. o frio cortante dói os dentes, racha a pele fina dos lábios. nós enfiamos as mãos nos bolsos dos casacos, mas é inútil. poupamos a fala, na tentativa de conservar o último calor restante dentro do peito, do estômago. e acompanhando o meio-fio, estão lojas e portões fechados e só. estamos bêbados, mas caminhamos. uns outros como nós, sem a mesma sorte, não aguenta. os companheiros caídos, casualidades da cachaça, populam os pontos de ônibus, os recantos longe da iluminação dos postes, as escadarias do metrô da praça. roncam, imóveis, como picolés alcoólicos, flácidos.

e a ideia do esticamento do sábado mágico, até meio minuto atrás, parecia terrível… mas agora, diante do horizonte próximo, onde podemos ver aquele ponto de luz no meio do escuro, longe das sirenes da polícia, longe dos gatos selvagens e da longa caminhada de estabelecimentos adormecidos faz tudo valer a pena, torna tudo fantástico.

ali está. pilhas e pilhas dos jornais recém entregues, uma pequena geladeira com açúcar, gás e um arsenal completo de isqueiros, charutos e outros tabacos. atrás dessa pilha toda de riquezas está ele, dentro da banca de jornal: no auge do seus 75, 80 anos, sozinho com exceção do barulho da televisão. os olhos rasgadinhos de risada não tem óculos, então nota-se que enxerga bem, mas que provavelmente é surdo – de fora, se ouve apenas seu gargalhar rouco e, em volume altíssimo, as falas e gargalhadas enlatadas de seriados americanos dublados. como quem parou no passado, faz as próprias regras para sua pequena ilha pessoal: um maço, caixa de fósforos e cinzeiro, ele fuma atrás da bancada, envolvido em um casaco puído, furado no colarinho. tem a cabeça branca, barba branca e dedos amarelos de quem fuma três maços de marlboro vermelho por madrugada.

não sei seu nome, se é feliz ou se ao menos é lúcido, mas escuto ele fazer cinco minutos de conversa, rindo dos nossos olhos envidraçados, com os dentes tão amarelos quanto as unhas. peço dois maços e uma coca-cola. ele me dá e me pergunta o preço da minha conta, me dá o troco.  nos despedimos. ele nos deseja boa noite, paternal, e acende um cigarro no outro. lá de fora, escuto-o rir de outra piada sem graça na TV. ele ri como se não houvesse maldade ou mau agouro na vida, como se, na verdade, não houvesse um mundo, o mesmo mundo com medo, a mesma noite escura e perigosa, fora do seu oásis de luz fluorescente – seu esconderijo onde ele se protege do frio da madrugada.

sigo meu caminho, me sentindo bem. mais a frente do trajeto, passamos por uma conveniência aberta, mas o neon de cerveja gelada não nos apetece. a promessa de um espresso fumegante também não. a temakeria está cheia de gente sorridente e bonita ceando, assim como a loja de fastfood, que foi minha casa por muitas quando minhas pernas não me permitiam caminhar meu rumo. ambos os lugares estão efervescentes com conversas animadas, mas nem mesmo o calor do aquecedor me chama. parece que já atingi minha cota de mágica, então prefiro não tentar mais para não estragar. deixe que fique a primeira impressão, intocada, imaculada. meu pensamento só retoma ao velinho, meu sangue cantando por esse momento inesperado. mal sinto mais a fome, ou frio. meu companheiro concorda, sorrindo também.

já no calor da cama depois de uma bela caminhada beatnik, mando pros deuses acima um pensamento silencioso, sorrindo: espero que aquele velho boa-praça tenha uma boa vida, e que, no mundo seguinte, nunca lhe falte seus preciosos sitcoms e maços de filtro amarelo.

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