pouco me interessa o protesto. estou aqui pela violência.

e era no meio do caos da rua que eu me encontrava. eu me moldara a imagem de todos os brutos, de todos os xingamentos, do turbilhão das rodas no asfalto. as miudezas do dia a dia urbano. minha existência pudera ser justificada por estar ali, e sobreviver. tudo que sabia, que havia aprendido, é que a experiência era uma professora boa, porém cruel.

e ali ele me gritava, gesticulando, como um cavalo selvagem que bate os cascos no ar. a veia saltada na testa, as palavras sem sentido para os meus ouvidos surdos. não entendia o que queria dizer e pouco me interessava. o que me captava a atenção eram as gotas gordas de suor que brotavam de seu pescoço, o modo como a raiva lhe cerrava os olhos.

eu me alimentava daquilo. quanto mais seu dedo em riste riscava o ar, mais eu sentia algo dentro de mim crescendo; podia dizer que era quase sexual, algo hilariante, crescente. quente. era o medo, o ódio, a indignação. e quase uma parafilia. o modo como ele forçava os dentes em uma mordida dolorida, pressionando a mandíbula e criando uma linha quadrada e adorável em seu rosto.

ele estava a ponto de espumar, um animal acometido de doença, rábico. levantou os 5 dedos finos, a palma dura. seu braço fez um grande arco no ar, tomando impulso. concentrava-se no golpe.

o tapa estalou no ar, como um chicote. minha bochecha quente do contato, uma marca nervosa concentrando-se no ponto de impacto. por um segundo, apenas um, ele sentiu-se satisfeito e sorriu, para imediatamente sentir-se culpado. seu rosto transfigurou-se numa careta feia, os músculos retorcidos, contraídos: o resultado da raiva que dissipa e do senso e pensamentos que voltam para ao lugar.

não falo nada, meus olhos baixos. é o momento crucial de tudo. ele coloca a mão embaixo do meu queixo, me forçando a olhá-lo nos olhos. abre a boca para iniciar um pedido de desculpas… esboça uma sílaba, titubeia, abre e fecha a boca como um peixe fora d’água. se sente fraco. é uma cena feia.

“perdã…”

soco-lhe o nariz. um soco quadrado, sólido, bem encaixado.

ele cai no chão, desnorteado. aperta o nariz, numa tentativa fútil de estancar o sangramento. o sangue jorra, um jato quente e lívido, impulsionado pelo bombear de seu coração. como é irônico! o órgão que o mantém vivo pode ser o mesmo a matá-lo, batendo e batendo, confirmando seu pulso ao mesmo tempo que ajuda a esvaí-lo de seu sangue.

e tudo é vermelho.

espero uma reação a mesma altura. espero que se levante, indignado, e que busque vingança. é uma sensação titilante, a espera.

mas frusto-me. ele, entre a pasta de sangue, saliva e poeira – as palmas das mãos raladas, a carne viva de quem se arrastou no asfalto – sorri.

só me resta sorrir também. estou entre um dos meus. o bruto reconhece o bruto, o rústico aprecia o rústico e um companheiro não deixa o outro para trás.

entre golpes desferidos contra o mundo e os recebidos dele, viveremos.

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