Kiev

e sentia um desassossego dentro de si que não podia compreender. só podia compreender como aquela visão o tocava profundamente, fazia lágrimas empoçarem nas pálpebras, e como estava, irrevogavelmente, entregue por completo aos ventos do mundo e à beleza daqueles olhos, livre nos sabores dos lábios e da profundidade complexa da alma.

mergulhado.

mas sentia que não podia tocar em nada, tamanho era o medo que se evaporasse no ar. não podia tocar nela, maculá-la. queria que o momento nunca fosse desfeito e que a sensação se materializasse e caísse como chuva, o encharcando até os ossos no calor do dia sem sol e no frio da noite sem vento.

***

já ela não sabia o que sentia, não sabia discernir. sentia que era certo e que era errado e o impulso de fazer e, depois, correr – os sinais opostos ao mesmo tempo. os olhos embotados de lágrimas de amor de moça nova, as mãos trêmulas, atabalhoadas. sentia que crescia diante da inspeção apaixonada do amante, mas não sabia como reagir.

achava que não estava pronta, mas tal dúvida morava só em sua cabeça. o coração lhe dizia outra coisa. as bochechas vermelhas ardiam de sangue e de vergonha, e ela apaziguava molhando as pontas dos dedos dos pés na beira d’água. perdera o olhar, por um instante, no horizonte para não encarar a intensidade do horizonte do olhar dele. e vira um barco… ao longe… e pensara que ali via, ir embora, seu viés de razão.

***

e ele estava disposto a esperar o quanto fosse necessário, esperar que o amor dela brotasse, forte, sem dúvida de nada.

sentia que podia esperar por anos a fio, sem remorso, manso, pois ao lado dela se sentia jovem como nunca. sorria conforme ela sorria. e, se ela chorasse, ele também estaria lá.

***

a voz dele era como se entoasse notas surdas, tocadas apenas para o ouvido dela. um fantasma d’algo lhe abraçava e ela sentia, pouco a pouco, a ansiedade escapar-lhe pelos poros, dando lugar a uma outra sensação, boa e pura.

chegava a conclusão de que não tinha alternativa a não ser dar a ele tudo que podia, tudo o que ele pedisse – mesmo que ele não lhe desse nada e, no final, nada fosse tudo que lhe restasse.

era esse o homem que ela nunca queria desapontar, nunca queria negligenciar, nunca queria negar nada.

era aquele o qual ela não poderia deixar. ficar sem estar.

afinal, o que era seu medo frente a felicidade dele? pouca coisa. quase nada.

***

e ele também lhe daria tudo, se assim fosse necessário.

mas necessário não viria, nunca, a ser. conto-lhe o futuro. mas, se necessário fosse, ele estaria disposto. mais que disposto. participante. decidido. tudo, tudo – seu coração e todo o corpo. e, se também ela lhe pedisse, sua sanidade.

Advertisements

now, your turn!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s