my own dark ages

a vida era como se fosse um grande caminho em círculos, cheio de pedregulhos, buracos. sem abrigo. chovia muito, sempre, o tempo todo. e os círculos, dando voltas e voltas e voltas. os pés descalços. não era nunca um passeio agradável. nunca um dia de sol. era uma sensação esmagadora, como uma viagem de duas horas, em pé, num trem lotado. me faltava ar. havia muita gente para um único vagão, um cotovelo nas minhas costelas e uma mão no meu rabo. e eu tomava cafeína pra subir, e álcool pra descer. caffeine bee-bop, alcohol blues. e minha vida era um fracasso, eu era sempre muito grossa, levemente maníaca. meu espírito estava quebrado. meu corpo, encurvado, quase caía. e dois maços e meio depois e duas xícaras e meia depois, e mais um quarto de vinho e eu me sentia meio humana. meu corpo já não lutava: se deixava ser o que era, sem sonhar. sem dormir. e eu bebia mais, bebia muito. a solidão parecia branda no estado pastoso da saliva estagnada, e eu espantava o silêncio e o tédio do mundo, em espasmos, aos murros e aos gritos. era como se a vida fosse um livro em uma linda língua que eu não sabia ler. não entendia. acreditava que fosse provação dos deuses ou dos diabos, de maneira fazer aceitável. mas não havia astro, nem boa fortuna do signo do zodíaco. era tudo retrógrado, gravidade. mas não bastava a crendice ou a crença. a vida era um bloco sólido de concreto onde eu, como um pássaro tonto, me atirava. era o murro na ponta da faca. era a realidade crua, uma sem final feliz: aquela que Jane Austen nunca escreveu. mas eu escrevia, escrevia muito, textos horríveis. vazava minha alma, em frenesi. caffeine high, bee-bop-la-lula. depois, letárgica, rasgava tudo com ódio. alcohol blues. era Bukowski encarnado, Kerouac no túmulo. meus ídolos sorriam pra mim do inferno. meu lugar me esperava, e eu sabia. estaria quente como a minha pele depois de três tragos. mas a chuva me causava calafrios, a espinha partida. eu não andava. a boca aberta de quem espera a morte num mês de mil dias. e não havia lua no céu, nem estrelas. não havia cometa Harley para um pedido. não havia escapatória. o destino era implacável, e eu passava, de novo, pelo mesmo ponto. andei pelo que pareceu cinquenta mil dias, mas não posso dizer com certeza. eu não distinguia a noite – não havia tempo, nem espaço. não havia nada. só eu. era eu, e eu. e, talvez, a distância. a distância infinita que não podia ser cruzada nunca. a distância entre dois corpos, entre duas pessoas totalmente diferentes. presente e passado, desconjuntados. não me reconhecia. não havia espelho. eu era aquilo, mas aquilo não era eu. andei por mais dias. me entreguei. me deitei na lama do buraco; do barco, abandonei o leme. tranquei meu quarto. era só eu e a cama e o copo, e o corpo no canto, cantando que o corpo já não podia mais nada. era eu, e o conhaque no cerne, e o choro no cílio e mais nada.

e a chuva. em círculos.

365 dias, um ciclo.

Advertisements

now, your turn!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s