Joyce (muse series #3)

esperava que a musa fosse frágil, porém as musas estão sempre a me frustrar as expectativas. esperava que ela fosse uma daquelas mocinhas românticas e inseguras quando tocada pelos assuntos poéticos – no melhor estilo de um romance piegas europeu – ou uma daquelas que vê beleza no sofrimento raso do amor. eu esperava que ela fosse aquela mesma que me abraçou forte e que, com a minha cabeça em seu ombro, chorou comigo um choro superficial que não sabíamos de onde vinha (talvez da cachaça, talvez da memória). porém, por trás dos óculos e da boa postura, a musa inquieta, doce, cujas unhas incessantemente batem uma contra a outra, é decidida e livre, prática e pronta na simplificação dos obstáculos da vida.

se passa um momento e ela apóia a cabeça nas mãos e sorri um sorriso sonhador, pensativo. por um segundo, uma fratura mínima se faz na sua convicção e ela vê certa poesia num passado melancólico. ela recorda, com os olhos nublados, de um beijo de recaída que fora belo por dois minutos. porém ela, rainha de si, chega a conclusão de que fora belo, muito belo sim por apenas aqueles dois minutos; depois, pensa que talvez pudesse ter sido lindo, se tivesse sido outra pessoa a beijar, numa tragicomédia, aqueles lábios arrependidos ao invés dos seus.

e ela corre dos seus clichês, mas apenas pra cair em outros novos. a musa é moderna e assim se constrói, se projeta, fugindo dos obstáculos e das situações ensaiadas. mas no fim ela é, e só pode ser uma coisa: humana. seu desejo só pode ser como o do próximo, mundano. e ela deseja quem não pode ter e se frustra ao amar quem não lhe ama. e daí ela faz uma longa pausa, os dedos inquietos, tamborilando, relembrando que, no fim das contas, seu maior desejo é apenas poder desejar.

a musa se deixa vazar pelas suas brechas, suas falhas. o dentinho trepado no seu sorriso de mil killowatts denuncia sua humanidade, e a sensatez do seu modo de pensar escapa por rachaduras finas, e trás à luz uma ponta de loucura em meio à sanidade desconfortável. a musa me faz me sentir normal meio ao meu confuso caos.

e a musa, no turbilhão de fios de cabelo do seu rabo de cavalo, me diz que mergulha e se embebe e que se entrega no amor que tem a si e aos outros. a íris brilha como o brinco do nariz e ela me conta dos seus percalços, dos seus desejos, e de como às vezes habita muito a fundo um mundo demasiadamente privativo. me diz que passa seu tempo num lugar que lhe pertence (e somente a si), onde a expectativa supera e substitui a realidade, tanto para melhor ou para pior. confessa que passa, dentro de si mesma, horas e horas de um tempo que julga, ainda que finito, necessário.

e ela me conta, por entre a fresta de seus lábios, que também sofre. porém, seu sofrimento não é puro, ou santo, ou negro – é transparente e duro, meio seu e meio dos outros, um sofrimento permitido em duração e intensidade pela necessidade de sua dona. e é isso que, no fim, a musa mais deseja (ainda mais que desejar): o controle, com maestria, da doação e da privação, conforme seu bel-prazer.

por fim, ela se revela, na fratura maior e mais límpida: ela se permite andar na chuva, na paz e no sossego. não deve nada a ninguém, e sem rancor nem melancolia, se permite o que convir – sejam erros, sejam acertos – na mais justa medida.//

(-Joyce)
END
STOP

(a musa pode parecer prática ou, ainda, um pouco desapegada aos detalhes poéticos a uma primeira vista, mas ela desdobra, em pétalas de lótus, a si e seus sentimentos. ela me frustra quando tento adivinhá-la, decifrá-la, e isso muito me agrada. a frugalidade do que escapa por suas ínfimas fraturas podem parecer pouco, porém, falam demais sobre a camada que vem logo abaixo. oh, musa, me frustra as expectativas, mas és tão humana por isso. se permitido for, desejo tocá-la…)//

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2 Responses to “Joyce (muse series #3)”

  1. Joyce Says:

    Traduzir toda parte de uma pessoa em forma de poesia, imagino, não é tarefa fácil.
    Quando você me me entrevistou, logo pensei, eu bem admito: “muito provavelmente esse texto se revelará um terrível equívoco.”
    Comecei a ler com ansiedade, sendo necessário reler alguns trechos porque tentava me reconhecer ali. Não foi difícil. Me vi nos trejeitos, no dentinho trepado (um toque todo especial), na insistência dos clichês, na tentativa de controle, na pontinha de loucura, no sofrimento pelo romance que nunca passou do prefácio. Eu sou tudo isso.
    Na última frase do primeiro parágrafo, eu já não estava lendo, mas bebendo as palavras. A cada linha que eu passava, me surpreendia comigo, me perguntando se eu sempre fora aquilo tudo. Sempre acreditei ser uma tolinha borboleta à caça de casamentos, no máximo uma pessoa sutil em um mundo caótico, mas descobri através das suas palavras que sou mais prática e menos sensível do que jamais imaginei ser. E de fato, a essa altura, baby, se o amor me batesse com um taco, eu não me importaria de sentir a dor.
    Eu esperava outro texto, outra pessoa, outra reação. Quem eu acreditava ser é que se revelou um equívoco, e eu fico feliz. Poder conhecer toda sorte de Joyce através dos seus olhos foi das coisas mais deleitáveis que já li. Obrigada, amiga.

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  2. Edmundo Says:

    É, porque no fundo a musa é um poço de pecados. Tão prudente.

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