Ana (muse series #1)

ela precisa de um cigarro para falar. está em um milhão de lugares ao mesmo tempo, um milhão de fragmentos de idéias e raios de sol no reflexo do castanho dos olhos. o cigarro lhe dá o que fazer com as mãos, lhe dá foco. um momento depois a outra mão agarra, como bóia salva-vidas, o copo quente de café. o gosto doce enjoativo do açúcar no café fraco desce a garganta e lhe traz aos lábios um sorriso. ela tem disso: a felicidade inocente (quase infantil) com os pequenos prazeres do mundo, com esses detalhes poéticos das coisas simples. e seus cabelos vôam, como que agarrados por uma pequena tempestade de vento. mas é brisa, só brisa de inverno. e ela dá mais um sorriso; porém, desta vez, é pensativo. vejo que ela passeia por um fragmento de segundo pela escorregadia estrada da memória, com aquele prazer de quem, depois de tanto tempo, já esquecera a muito os detalhes ruins.

finalmente está pronta pra falar. dos lábios entreabertos, sorridentes, ela me diz: “nunca realmente namorei”. tímida, ela abaixa os olhos, como quem teme julgamento das bocas alheias. ela suspira, um suspiro pesado, e continua: “o mais próximo que tive foi uma experiência de quatro dias, eu nos meus dezoito anos e ele, nos vinte e quatro. seu nome…” uma pausa agridoce, mínima, se faz no ar “… era Bruno. me lembro dele, sua presença constante na porta do colégio, indo buscar sua irmã – minha amiga – no seu taxi amarelo.” ele era taxista, seu cavaleiro do cavalo amarelo de quatro rodas. “ele era de jacarepaguá, eu de niterói. ficávamos a dois meses. eu era virgem, ele não. não tínhamos nada em comum.” depois disso, uma outra dessas memórias agridoces lhe acomete e passa, como um flash, na frente dos olhos. “tirando o fluminense.” ela se lembra. “ambos éramos tricolor”.

“mas ele criticava meu samba. e usava pochete. como se alguém que escuta abba e usa pochete pudesse criticar meu samba.” e num desses pulos neurológicos, ela traga o cigarro, batendo uma cinza longa, e cantarola um samba com paz de espírito – um samba desses que eu penso que seja um daqueles do coração, tamanha a vontade. e ela mexe a cabeça, com a fumaça entre versos. ela tem disso: se acende com um fogo de artifício e queima queima queima até apagar, por um breve momento. queima rápido, mas irradia.

“mas ele não era de todo mal.” me diz, entre versos. “uma bela noite ele me chamou para um encontro. me levaria ao circo. achei lindo, lúdico…” (creio que, nesse momento, seu lado criança brilhou, como havia brilhado, naquele passado próximo – a mesma intensidade do instante suspenso). “porém, só ao chegarmos lá que ele me disse que eu conheceria sua prima.” e daí ela me dá uma risada alta, se lembrando de uma piada interna. sente vergonha, se recusa… mas não resite e revela “só eu não esperava conhece-la no picadeiro. sua prima era o segundo ato da noite, a anã acrobata cantora.” e ela gargalha, um riso puro que lhe sacode o corpo por inteiro. eu rio também. ela continua: “mas até então não namorávamos. não havia intenção de compromisso nem da parte dele, nem da minha. ao fim do espetáculo, fomos beber com os circenses. entre cervejas e os palhaços de maquilagem borrada, entre o palhaço do taxista e eu, o clima de mágica ainda reinava, aquela tenda imaginária de uma infância montada por cima de nossas cabeças.” (tirando o fato de que, ela me revela, que não havia nada de mágico em Ana ter que levar a Anã toda hora ao banheiro.)

e dessa vez eu me pego rindo um riso de me doer as costelas. mas seu riso já cessou. ela relembra “e aí veio o momento fatal; entre umas e outras, depois de umas todas – como uma arma na cara – ele me pediu em namoro. e eu disse que sim. talvez por medo, talvez por euforia, talvez por bebedeira circense. não sei. ele me pediu. eu aceitei.” e ela me pede o isqueiro, acende outro hollywood light.

“estava feliz. era sábado esse dia. voltei pra casa, dormi entre nuvens. acordei apenas com ressaca. talvez também com vergonha e confusão. havia me arrependido, mas lutava. então, ainda assim, sentei do lado do telefone. por horas.” (a espera consciente pelas coisas faz do tempo ainda mais longo)

“ele não ligou.” aparentemente, por uns dois dias.

“acho que era terça quando ele apareceu. me lembro dele, sob o sol do meio-dia, um tempo depois do sinal da saída, muito magro e alto – reto – encostado no capô do taxi. não foi uma visão de alívio. os braços cruzados, a pochete. os olhos sem emoção.”

ela me conta que ele lhe disse: “não estamos namorando, não é?”
“não.”

e seu sorriso se apaga por instante, mas não muito longo. uma tragada, duas. bate a cinza. sem tragédia.

“nunca mais nos vimos ou nos falamos. mas pouco tempo depois, soube que ele estava namorando outra.”

e sem tristeza, num meio sorriso, ela termina:
“Não fiquei triste.”//

(as grandes ficções amorosas acontecem quando estamos preocupados, procurando muito atentamente por algo que pareça real. já as pequenas sutilezas do amor passam, nesse meio-termo, desapercebidas, pois não temos tempo, nem olhos, para repará-las. as notamos apenas depois, lembrando delas entre outras memórias perdidas, entre fragmentos engavetados.)//

(-Ana)
END
STOP

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2 Responses to “Ana (muse series #1)”

  1. t_mota Says:

    i loved the new serie. Keep this thing comming. miss ya

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  2. Ana Paula Martins Says:

    Você captou bem meus pedaços, e montou a sua cena. Me ler através das suas palavras foi quase como olhar uma fotografia minha tirada por você. Ver traços que parecem comigo, mas tem a sua assinatura. Você tira fotos até sem a máquina, imagética, incrível. Adorei ser musa, amei o texto. Aguardo as próximas. Obrigada, e parabéns!

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