please do not smile at strangers

o tempo tem estado frio novamente. os casacos fazem reaparição, quase sombria, com as jaquetas e sobretudos pretos formando a palheta de cores do lugar. o cheiro de naftalina e chuva se misturam – em um odor curioso, ainda que apenas levemente desagradável – ao aroma forte do café e o perfume doce das senhoras.

o lugar é deveras aprazível: pequeno, quieto. doméstico até. e o melhor: barato. fazia tempo que as pratas andavam escassas e eu escolhia entre comida, bebida e cigarro. mas, enfim, era um recanto bem iluminado por lâmpadas amarelas, com uma vitrine transparente, meio suja, onde se pode ler, simplesmente, “Café”. sem identidade, sem nome, sem placa. não é um Joe’s, nem um Mary’s – é um café, com café, tabaco e biritas baratas, servindo apenas ao propósito inicial. e eu gosto disso, da ausência de rodeios morosos. olho pela vitrine: meus olhos cansados desfocam as luzes dos postes e letreiros neon, formando um mosaico borrado de desfoque lá de fora. as gotas de chuva, embaçadas, servem de prisma para os reflexos dos faróis de carros e as luzes dançam como neurônios explodindo ou vela romanas silenciosas.

é noite. me sento na última mesa, de canto, embaixo de uma foto amarelada da antiga Choszczno. é o lugar mais longe da porta, então tenho visão certeira, por cima das nucas cansadas, de quem vem e quem vai. é noite, um pouco tarde – nada apropriado para ingerir cafeína e nicotina, mas sou criatura de hábitos. poucos são. logo, escassos são os vagantes notívagos que adentram, anunciados pelo sininho de bronze da porta, em busca de uma bebida quente, de uma companhia, de uma alma. entra um casal calado, tristonho e “sim, sim, sim” me diz o sino. meia hora depois, mais uma figura esquálida – pede um bourbon com a boca e, com os olhos, para ser salvo. simsimsim.

há aqui outros solitários que, como eu, observam. meus olhos pousam de rosto em rosto, os blocos de papel surrados, cernes cerrados. sinto uma pontada de ciúme por ter que dividir meu recanto com outros urubus, tão barbudos e maltrapilhos quanto eu. porém, é de se esperar. o tempo tem estado frio novamente e a primeira brisa gelada do inverno traz à tona todos os sentimentos indesejados de solidão e morte. e, com eles, brotam também os poetas e os escritores rasos, e suas palavras fúteis sobre a infertilidade de suas vidas e da ausência de um corpo quente na cama.

estou entre eles. escrevo sobre as pessoas. incapaz de sentir algo mais, passo o tempo imaginando coisas. seus nomes, seus perfis, seus gostos. me aproprio do sentimento alheio: o prazer do beijo roubado da mesa cinco, a doçura da torta da mesa três, a solidão avassaladora do homem sentado, queixo apoiado no punho fechado, no balcão.

escrevo sobre os objetos. a sensação de estar focado, atento a um universo micro, alivia a ausência de detalhes importantes em uma macrodimensão. substituo um mundo por outro, devido a facilidade de ser como uma formiga dentro de uma fazenda de vidro no quarto de uma criança dentuça e curiosa.

poeta pobre, eu sou. poeta pobre de espírito, pobre de dinheiro, pobre de rimas. meus poemas não valem um só złoty. escrevo sobre minha xícara. como um fotógrafo tedioso, observo um objeto insignificante com detalhismo minucioso. e recordo. logo, escrevo sobre como minha xícara branca faz um contraste belo com o líquido negro, como o calor que emana da porcelana é gentil com meus dedos frígidos. “I live vicariously through the pleasures of others”, escrevo em folha branca. preto e branco. experiência estética agradável. o borrar da tinta. enfim. essas merdas.

o sino fica muito tempo sem cantar. não sei quanto, mas tempo demais. o burburinho é baixo, conversas veladas a ouvidos escolhidos. me entedio. um bêbado baba no seu prato. até as moscas dormem, espalhadas entre as paredes gordurosas, pontos estáveis como pregos abandonados pelos seus quadros, esquecidos de serem removidos. Balthazaar não fará café até o próximo quarto de hora e a cozinha ronca por entre as bocas do fogão. o casal vai embora, os abutres cochilam. são despertados pelo “sim sim sim”, mas apenas por um breve momento. as pupilas dilatadas não enganam, a cabeça baixa. os sonhos adormecem nas pálpebras, as palavras descansam nas olheiras. então converso com a xícara, olho pra ela como um poço, esperando que a borra do fundo me conte o meu futuro. um borrão. parece um palpite apurado.

invoco. não me abandone agora, John Fante, não me perca no pó do Mojave. não me abandone agora, Raymond Carver, não me abandone, Knut Hamsun. ó, sinais do universo, revelem-se agora, nessa xícara, três aparições sobrenaturais de três bruxas nesse pó de coffea arabica. se mostrem, ainda que fracos. fala, xícara! fala que te responderei.

nada. só o barulho intermitente da chuva que derrama como leite num pingado.

pronto. o café está frio, sem gosto, sem cor. a borra acumulada, estagnada no fundo, nada fala. pronto. o tempo está frio e meus dedos, congelados. a caneta me cai, o papel amassa. está estragada a experiência.

malditos sejam vocês, escritores, estragando as coisas belas e simples ao enfiarem nelas os seus malditos sentimentos….

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3 Responses to “please do not smile at strangers”

  1. xasika Says:

    tenho medo do que você considera um texto ruim. esse texo foi escrito pelo bandini, pelo que li do livro até agora pelo menos..

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    • Flavs Paradise Says:

      bandini? mas que honra.

      ps. falando no Fante, reconheceu a referência? tá gostando do livro?

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  2. Licia Says:

    Eu desde criança gosto de observar as pessoas e imaginar os nomes delas, o que elas fazem em casa,s e têm filhos etc. Aí um dia me disseramq ue isso era Fernando Pessoa. Fiquei muito puta, “Não é Fernando Pessoa, por que uma coisa que eu penso desde antes de aprender a gostar de poesia não pode ser simplesmente atribuída a mim? Por que o pensamento tem que ter referência bibliográfica?”. Depois aprendi que esse era só mais um fator de identificação entre mim e o homem. Mas não digo que é dele, é sobretudo meu.

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