the sweetest thing (ou: um post sem café e quase sem cigarros)

olhares me censuram quando falo de você. olhares de pena, às vezes, olhares que dizem “tola! romântica incurável! boba!”. porém, seria bom se lembrassem, antes de passarem julgamento, que, quando penso em você foi como, lá no passado, já disse: “são muitas e boas as coisas que penso em você”.

e eu ia descendo a rua e sorrindo, pensando em memórias que só o tempo ameno, a brisa fresca do fim de tarde podem trazer. e eu rio, sozinha, um riso largo e cito, uma frase de uma conversa velada, só para mim. cito em silêncio, mexendo os lábios. tento uma palavra, ela sai. falo sozinha pela calçada e esbarro, distraída. ganho um desses olhares supracitados de um transeunte. e eu só sorrio no rosto daquele que me censura e percebo, nesse instante, que tudo está bem, que faz sol, e que estou, por acaso, descendo aquela mesma rua do nosso primeiro dia.

e uma sensação boa me percorre o corpo, aquele mesmo calor que acende um sorriso no rosto quando nós, parados no tédio de qualquer fila de banco, somos assaltados pela surpresa agradável da coincidência divina e encontramos com um velho amigo ou escutamos, vindo dum radinho baixinho e fraco, aquela que é nossa música favorita. o mesmo sorriso dessa surpresa é o sorriso que sorrio, o sorriso largo. você, ao acaso, ainda se lembra desta mesma rua, desta rua do nosso primeiro dia, rua que nos levou ao nosso primeiro beijo?

eu me lembro. da rua e do beijo. lembro dos meus dedos nos seus cabelos, que na época eram desajeitadamente longos, dos meus dedos correndo pela sua pele áspera, o dedão na bochecha, memorizando cada pedaço. lembro dos lábios nos meus lábios, seus lábios rachados, meus lábios secos de bebida, os seus beijos tímidos e com medo, os meus beijos trêmulos de quem já ama, em silêncio, há muito tempo. meus beijos insistentes, os seus cedendo, um jogo onde uma parte sairá perdendo.

e ali eu havia encontrado o meu rubicon, o ponto de onde não há volta, o ponto onde se consome o fogo pálido da paixão e se consolida, temperado, o amor.

e, naquela noite, eu te guardei no meu abraço e te dei todos os meus beijos, sem pudor e sem reserva, desejando que viesse o fim do mundo pois ali a morte seria plena e porque meu peito não podia mais suportar o peso do coração, tão lotado de amor por aquela figura, objeto de adoração.

o que você sentia, ali, eu não podia dizer. eu estava preocupada demais em me lembrar de inspirar e expirar e te segurar junto, te segurar perto, para mim.

cantei no seu ouvido com um tom que não sabia que existia, um tom baixo e rouco, de garganta trêmula (de emoção). cantei sussurrando, só para você, minha canção favorita, na emoção dos pássaros, dos foliões ébrios e das moças apaixonadas que suspiram. sussurrei, quase uma reza duma mãe que espera o filho voltar pra casa, que não dorme, de amor, sôfrega, até ele chegar. cantei. sussurrei “tell me the secrets, show me the sings, say you desire, desire me now”. sussurrei o mundo em significado, sussurrei um enigma de mim, te entreguei meu primeiro pedaço. o rubicon, eu podia vê-lo: ficava para trás, cada vez mais longe, eu mal podia ver. sussurrei, ali, um pedido.

você não entendeu. fechou os olhos, assentiu com a cabeça, mas não entendeu. mas pouco me importava, eu estava – vencedora – no cume da mais alta montanha, estava na linha mais alta. havia chegado e conquistado e escarrado e rido na cara da última fronteira. adeus, César! ultrapassei-te. rubicon. minha linha final.

até que chegou o momento onde eu tive que partir e te deixar e te beijei, na despedida – sua boca sonolenta, minha boca de ressaca, cigarros e palavras engasgadas (todas palavras de amor ainda muito imaturas para serem proferidas).

e te deixei, e junto dos meus amigos desci essa mesma rua que agora subo. era já bem tarde, e viemos, eles ébrios de álcool e eu de você, descendo a rua, ziguezagueando as calçadas, cantando tolices. ganhei olhares de pena daqueles que previram o futuro de nós dois mas sorri. sorri largo, os pássaros voando em torno da minha cabeça, aquela tontura de todas as coisas e desarmei as caras feias e sorrimos rodos frente ao broto do meu amor que, finalmente, desabrochava.

estava perdidamente apaixonada.

e meus amigos me deixaram naquela esquina maior e eu segui, sozinha, com minhas esperanças e sonhos, pela rua. gritei, finalmente, gritei alto, desentupi a garganta apinhada de vozes de desejo e amor. gritei para acordar a vizinhança, para alertar a todos os que dormiam, inertes ao presente, desavisados do mundo que, finalmente, algo acordava também perto de mim.

era o despertar da vida, no melhor dos clichés, o despertar de mim. o despertar de todos os poemas que foram escritos e todas as músicas que foram cantadas, e todos esses sentimentos aos quais eu me agarrava, com unhas e dentes, novamente – como se fosse a primeira vez.

e com a voz limpa eu cantei como os pardais que voam, cantei a plenos pulmões qualquer música que agora eu infelizmente não consigo mais recordar qual. cantei como uma criança que toma a primeira chuva do ano – uma canção pueril, reconfortante, do fundo do meu peito pesado de amor.

e, naquele momento, eu não tinha olhos para as ruas nem ouvidos para suas buzinas. cantava. não tinha outra voz senão para o amor nem outra cabeça senão para a lembrança de você.

meus ouvidos zuniam.

um homem, passando pela minha calçada, lançou-me um olhar desses de pena. cantei, como louca, para ele. cantei alto. ele parou. desarmou seu olhar e sorriu, sorriu largo, tanto quanto eu sorria. estendi-lhe a mão, tomei a dele na minha, o chamei para valsar. ele não disse nada, nem se moveu. o puxei para um abraço, balançando-o de leve de um lado para o outro. o abracei com furor por longos segundos, partilhando uma felicidade que jamais conseguiria por em palavras. nos separamos, e ele sorria, sorria largo e sincero.

nos separamos. me despedi sem palavras. ele também. fui para casa, desci toda a rua. não vi olhares de pena, apenas cantei e dancei. não haveria sono aquela noite. eu havia, finalmente, despertado.

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