esperando o tempo começar

conto (crio) essa história pois ela, em cada um dos seus pedaços, me ajuda a lidar com seu fantasma (e comigo mesma). conto (crio) essa história para ter, às vezes, em alguns dias mais cinzas onde o café acabou e as pessoas parecem apáticas, um porque para me levantar da cama, uma razão pra seguir em frente, andando do lado errado da rua, escapando – toda arranhada – da roda dentada que me mastiga a inspiração e a vontade de viver.

conto (crio) esse livro do insólito, cheio de detalhes fantásticos, inverossímeis – trezentas páginas de detalhes aumentados e de histórias convenientes de tempos passados, de quando me lembro, de tempos em tempos, de você, de modo continuar a respirar e empurrar o peso da rotina burocrática que me dita o relógio com cada tic e cada tac da vida de sua pilha.

me apego à cidades imaginárias, vivo nelas – ou então vive uma outra, nova versão de mim – de modo abdicar de um pouco da minha herança, um pouco da minha expectativa, continuar viva. conto (crio) longos faz-de-conta, longas histórias de amor que (não) aconteceram fora da minha cabeça, ou (mas) que acontecerão, em um futuro próximo a qualquer um que tiver a boa sorte ou a má fortuna de, simplesmente, querer.

conto (crio) um passado recente e um futuro distante de você e de mim. sangro (vivo) as páginas de um imaginário de prazer e dor da carne e do espírito. me permito, aqui, nesse papel amassado, transgredir a pureza do seu corpo, matar-te, reanimar-te, poluir e violar sua memória e sua moral conforme me for satisfatório. me permito também te endeusar, te criar conforme o meu sonho e minhas lágrimas, imaginar um amor perfeito, uma saudade irreal sentida por mim e transportada, por emoção, para você.

me satisfaz ter força para sentar e contar (criar) detalhes do que ainda não foi (e do que talvez nunca será). me satisfaz sangrar (viver) todos os dias essas linhas, conforme elas vem, na angústia, na febre, no delírio suado de recriar esse pedaço de mim que morreu contigo, que arranquei para te dar de modo você nunca mais sentisse frio ou solidão. então conto (crio) e re-conto (re-crio) cada pedaço de mim pois, desmontada, destituída do completo, sinto-me sem função útil para o mundo e para alguém.

a inadequação de quem procura algo, a insatisfação de quem perdeu algo – a revolta de quem teve algo roubado. essa sou eu.

mas peço que não leia esse meu livro de mim como uma longa carta de amor. não leia minha história contada (criada) como algo que foi escrito e dedicado a você, como se algo que não existiria caso você não houvesse partido, como se fosse a sua história, a sua memória, a sua vida.

não só cada linha daqui é dedicada a mim como também, no fim das contas, é tudo falso.

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One Response to “esperando o tempo começar”

  1. Licia Says:

    Se você fizesse um levantamento das palavras que mais aparecem neste blog, certamente, seriam café e cigarro, ou coffee e cigarrette. Hehhee…

    Beijos

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