Gin and Tonic: Uma Crônica Masculina de Bar

“We are new arrivals
to these small pleasures”
– Raymond Carver, Fires

eu andava, como sempre, distraído. andava num período entre-empregos e num período maior ainda entre-amores, então, era safo admitir que eu andava fumando e bebendo um pouquinho mais do que o normal. o fim de tarde era quente, os sapatos apertados. o clima era convidativo para uma cerveja e eu estava de volta aos meus velhos caminhos, então parei na primeira birosca para tomar uma geladinha. a única loira da minha vida, minha única companheira, a única que esteve lá por mim em todos os momentos. a cerveja, essa única mulher da minha vida (depois, é claro, de minha mãe).

boteco de lapa, boteco bunda de fora, birosca – a tradição do ócio, a herança da tarde, o senso de pertencimento entre um bebum e outro. ali tem conforto, coisa que o mundo não causa mais. e felicidade, coisa que não se acha em escritório ou em loja. fui pro balcão, bati o dedo com veemência no vidro, por cima dos pastéis frios, ovos coloridos e carne assada, e o rapaz me trouxe uma suada e um copo americano. aquela garrafa marrom, bela, tão fresca, o néctar dos deuses. o cheiro de cerveja velha era doce, era amigável, cheiro de bar; era um cheiro reconfortante, que me lembrava de tempos onde eu era mais novo: cheiro daquele garoto que gostava de farra, mas tinha um sonho no bolso e um ideal de ‘ser’, ideal esse que não era de mudar o mundo, mas que era, ainda assim, seu ideal.

a verdade é que o tempo passava pra mim. a verdade é que eu já não sabia mais das coisas dos garotos mais novos e, sinceramente, pouco me interessava saber. ainda sou bonito, veja bem, sou mais velho mas não sou VELHO, não tenho rugas nem cabelos brancos, e ainda gosto de belos garotos, mas os garotos muito garotos me entediam. eu vou a festas, vou a reuniões, conheço amigos dos meus amigos… e, sinceramente, acho um saco. garotos flertam comigo, garotos me agarram – e, como não sou de ferro, agarro-os de volta – mas eles não me interessam. garotos tolos, garotos ingênuos, garotos que procuram na pista seu primeiro amor. grande amor, o desses garotos: embalam o romance de suas vidas ao som de Lady Gaga.

admito, admito, sem hipocrisia… não há nada mais revigorante do que virar as cabeças dos presentes ao se entrar num salão com um belo e jovem garoto pendurado no braço. sabe… um boy-toy daqueles que só faltará, na manhã seguinte, ser deixado roncando na cama com o dinheiro do táxi na mesinha de cabeceira. mas esses garotos – belos corpos, acéfalos – que permeiam o mundo, vem e vão, como chuva.

e foi nesse bar, no meio do cheiro de cerveja velha e do suor dos corpos, e dos vidros de ovos coloridos e da fumaça de cigarro que eu conheci Carlos. Carlos, um belo moreno, belos olhos morenos, músculos apertando o paletó, tomando uma cerveja, sozinho como eu, no fim do balcão. Carlos, seus cabelos cacheados caindo como os de anjo, mal devia ter seus 21 anos. um menino-pingente, para pendurar no pescoço e mostrar. um pequeno eye-candy, estagiário. me pediu um cigarro, eu lhe dei. trocamos meia hora de prosa, prosa banal, perguntas, olhares. fumamos meio maço. juntamos nossas contas e depois de 30 minutos e mais 3 cervejas ele estava encantado. ele era bonito aos olhos e fácil na lábia, então eu flertava solto com o Carlinhos (“me chame de Carlinhos”, ele dizia). tocava-lhe o braço, ria de suas anedotas, mordia os lábios. eu citava uns dois autores por vez, contava-lhe de uma viagem e ele sorria, hipnotizado.

reconheci aquele sorriso e reconheci aquele olhar brilhante. bingo! havia fisgado mais um jovem garoto tolo e impressionável. mas eu estava cansado de brincar de Mr(s). Robinson, cansado de bancar “a primeira noite de um homem”, não queria ensinar os caminhos do amor para mais um garotão que procura um lar. não, meus caros, como já disse, moços bonitos vem e vão pela minha porta e eu não ofereço nem teto nem roupa lavada. mal ofereço a estadia de uma noite, um copo de vinho e tabaco. mal ofereço meu corpo, quanto mais um pedaço de minha alma. Carlos e seus belos olhos e seus belos bíceps e sua belíssima bunda terminariam numa belíssima foda começada contra a porta que mal havíamos fechado naquele hotel a duas quadras do trabalho do Carlos.

ah, temos que gostar da Lapa, suas esquinas salpicadas de hotéis e de gente procurando sexo, de suas salinhas comerciais vazias, todas convenientemente localizadas para suas necessidades sexuais da hora do almoço. contra a porta, contra a parede, as cuecas arriadas pelos joelhos, na cama. pau duro, lábios macios, um beijo mordido, uma mordida beijada. ofegantes suspiros… recomeçar. à distancia eu ouvia o toque de um telefone esquecido no bolso e o barulho do trânsito louco e urbano correndo lá fora. aqui dentro, umgemidoroucoeumgritoapressado.

não se escutavam ponteiros de relógio. não sei quanto tempo se passou. o ranger da cama cessou, assim como o ranger de dentes e ele não tinha tempo para ficar (o cartório fechava às seis horas). eu não tinha vontade (“há mais entre o céu e a terra do que sua vã filosofia”). o correr da água do chuveiro era, na hora, a trilha sonora, misturada com a rádio brega que tocava, de fundo, baixinha e abafada. Carlos saiu enrolado na toalha, saiu por entre os bafos d’água quente do banho, as gotas achando caminhos por entre os caminhos do peito dele. o caminho da felicidade moreno se perde por dentro da toalha branca, mas não me inspiro. ele se vestiu, sorrindo de soslaio, um ar de suspiro nos olhos. olhar de sonhos, olhar de quem traça um futuro. achei aquilo meio brega, mas achei melhor ficar calado. Carlos falava algo, creio que são elogios, mas não presto atenção. vejo sua boca abrir e fechar, mas não escuto som. sentado ao pé da cama, eu colocava minhas meias, calçava meus sapatos. Carlos, agora vestido, sentou-se ao meu lado, ajeitando a gravata. me perguntou se eu acreditava em amor a primeira vista e eu rolei os olhos ante ao cliché máximo do garoto. nessa hora, finalmente, achei pertinente comentar.

“me dê um herói e lhe escreverei uma tragédia”. citei Fitzgerald, soando críptico, mas só por citar. isso causava em Carlos uma excitação engraçada, um certo orgulho pessoal por sua conquista, uma vontade adolescente primordial de se apaixonar por alguém mais velho, mais maduro, mais sábio. pobre Lolito, quanto tempo ainda lhe falta nessa vida, tanto o que aprender – e ele quer se apaixonar.

acendi dois cigarros, lhe passei um. “Então?” Carlos me pergunta, mirando o carpete debaixo de seus pés, arrancando as bolinhas do lençol e tragando (o crepitar do tabaco queimando estalando o silêncio) “Pode me dar seu telefone?”

“Não.”

porta afora os carros buzinavam, as pessoas gritavam, riam, faziam sinal. atravessam, como baratas, as ruas do Rio de Janeiro. fazia um calor do infernos e eu precisava de um emprego. talvez precisasse também de um amor, mas não daria, jamais, o braço a torcer. estava quente, muito quente. era uma boa hora do fim de tarde ainda e o clima estava convidativo para tomar umas.

rumei para o bar. dessa vez, tomaria gim tônica.


[ Desafio Literário. um escritor desafia outro a escrever uma visão sobre seu trabalho. Hey, Mercedes foi desafiado por Crônica Masculina, eis minha resposta. Gostaria de convidar todos os leitores a participarem do desafio de tentarem escrever como eu, e eu, por minha vez, como vocês. vice-versa, babes. ]

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