Diários de Brasília n° 3

passaram-se já muitas horas. passaram-se ainda mais quilômetros. caiu a noite, finalmente, 650km depois. a madrugada adentra minha alma, captura, e eu já não tneho mais febre. a brisa cheira a sono e Kerouac descansa agora dentro de mim. está apagada a chama do delírio, a adrenalina em baixa e meus dedos não tremem mais conforme escrevo estas palavras. o hálito da noite é silêncio e sopra na minha nuca. tomarei café quente, numa xicrinha suja de cerâmica, na próxima parada. preciso sentir a estrada toda, preciso saciar a vontade de ver o sol nascer no horizonte do asfalto. mas estou velha. sinto sono, sinto frio. foi-se o tempo onde a noite me acolhia, me encontrava de braços abertos. agora só me acolhe o sono, e almejo a maciez de uma cama ao invés da fumaça de cigarro, do vapor do álcool e do calor da lampada.

mas resisto. um café, só um café. uma música alta, esticar as pernas. não quero dormir, não quero perder. não quero me sentir velha. então fecho os olhos, mas só para ouvir – e já não sei qual das vozes fala. os sonhos partidos, os ossos quebrados, pelas pedras, pelo tempo, quem sabe? quem fala? roncos leves zumbem nos meus ouvidos.

Kerouac dorme.

são só (ainda?) mais 650km me separando do meu destino.

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