pluvial

chove muito. a semana toda de chuva, o ar úmido e pesado das gotículas que não caíram ainda, suspensas no ar. engarrafamento, como sempre, presente. a buzina dos carros incomodando a paz daqueles que sentam e meditam debaixo do céu cinza da metrópole. a cidade e suas ruas são como um coração infartado, suas artérias entupidas de lixo, água, faróis e lata. acabaram-se meus cigarros, então só me resta ponderar. a primeira chuva do ano não lavou os meus pecados, e acredito que não lavará. a primeira chuva do ano não lavou a cidade, e acredito que também não lavará. a escória anda pelas calçadas, respira e fala. a brisa gelada contrasta com a fumaça do café quente que os amantes tomam nos cafés e bares. vejo-os pelas vitrines: os amantes se olham, todos, com olhares de amor. sinto inveja sincera, porém não nociva. e sinto uma admiração quase nociva, ainda que não muito sincera. escrevo sobre ela. ossos do ofício: aquele onde se observa. e chove, chove muito. se fosse poeta diria que agora o céu chora. mas não sou, logo digo que é só precipitação d’água. compro cigarros. a chuva, maldita, lavou (ao menos) minha caixa de fósforos. os amantes desgrudam o olhar um dos outros e me olham – o cabelo ensopado, o tênis furado – com pena. lembro do dia, no passado, onde também fui amante.

você por acaso se lembra que foi você o primeiro a dizer que me amava?

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One Response to “pluvial”

  1. Licia Says:

    É duro.

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