cartas que já não são de amor

“She cried hard, maybe because she had to cry so quiet;
maybe because she felt the same way about tears she did about deceit,
hating herself for doing it, hating him because she had to.”
– William Faulkner, As I Lay Dying

meu amor,

podia escrever-te mais esta carta abraçando os clichês daquela que sofre, abandonada, podia tentar contar-te da saudade que sinto, tanto do seu corpo quanto de sua alma, podia dizer o quanto o teu sorriso é lindo e o quanto sinto falta de te ver rindo das minhas piadas bobas; podia escrever aqui a letra daquela música (que, no momento, são todas as músicas de amor já escritas) que diz tanto sobre mim e sobre nós ou podia te contar das noites em claro que passo pensando em você, ou das que durmo e acordo, triste, de um mundo utópico de sonhos, ou das noites frias em que saio e bebo muito e procuro um corpo quente qualquer para substituir o teu corpo entre meus braços, teus lábios colados nos meus lábios e, até, a tua cabeça no meu travesseiro.

porém, meu amor, essas palavras de nada valeriam. sei que a pele do teu coração é curtida, sei que foi isso que escolheste pra ti, para nós. queria ter tido apenas uma palavra, um voto, mas não tive. e sei que não tem volta. porém, mesmo nós não sendo mais nós, mesmo nós sendo eu e você sendo você, é impossível deixar de dizer, deixar de contar-te as coisas de mim, os meus pequenos mistérios. não sei se é um hábito feio abrir assim o berreiro pra ti e se ainda te interessa saber minhas intimidades, mas é que, quando te foste, não levaste apenas o homem que amo embora, mas também meu melhor amigo e confidente.

logo, meu amor, não queria dizer-te essas coisas, mas acho que agora já disse tudo. sinto tua falta. queria gostar de outra pessoa e poupar-te o desconforto do meu sentimento não-requisitado, mas não consigo. os amigos me dizem “dá tempo ao tempo” mas não sei de que tempo eles falam. o tempo só coloca mais poeira na minha ferida, sinto-a mais aberta a cada dia. isso sem dizer que, aparentemente, cada dia demora dois para passar. o tempo, no momento, não é meu aliado. gostaria de não ter que estragar sua liberdade com meu relato, mas ainda me sinto presa a ti. carrega-me como peso morto por um pouco, por favor, até que eu volte a vida. te peço que me ature mais um tempo.

queria que fosse outra pessoa que curasse minhas feridas, mas não a tenho. e você? já tens outra pessoa? minhas sinceras congratulações se tiveres. porém, me explica como o fizeste, uma vez que já faz tanto tempo que meu outro alguém era você que acho que não sei mais como é ter um outro alguém. e, acredite, estive tentando. você sabe o quanto é difícil encontrar-se no outro, o quão difícil é ter aquele momento de silêncio confortável? sabe o quão difícil é partilhar a refeição numa mesa pra dois, frente a frente, uma entrada, prato principal, sobremesa, café, conhaque e cigarro, com uma pessoa que não te emociona, que está a um passo de ser um perfeito estranho?

contigo era tão fácil, as coisas vinham e fluíam, o silêncio era perfeito, contente em estar, as refeições eram românticas (mesmo você odiando meus cigarros) e eramos tão… tão… nós. se você mudasse de lugar, eu ajustava, e vice-versa, eramos presos um ao outro por gravidade ou sei lá o quê, uma força magnética que física nenhuma explica, era tão natural que não sei se consigo de novo… forçar com outro. ser nós, dá muito trabalho, consume muito… e você, já consegue ser nós com outro alguém?

é isso. peço desculpas, de novo, pelo desabafo. ando sôfrega com as coisas, o coração na garganta, em nó que não pode ser desatado. desculpa, meu amor.

é. acho que não posso mais te chamar de meu amor.

boa noite, meu amigo.

daquela que (ainda) te ama,
– F.

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