Tristessa

“eu me dou conta de que estou aqui pra me recusar a deixá-la morrer”
– Jack Kerouac, Tristessa

e nós vamos andando pelas ruas escuras e frias porque a essa hora não passa mais ônibus, duas e trinta e sete da matina, e é um começo esdrúxulo de sábado, uma melancolia que tomou o lugar da alegria de meia hora atrás do bar. andamos calados, chutando pedrinhas e baforando fumaça, muita fumaça, fumaça química de tabaco furreca de maço de cigarro de boteco, achado, barganhado, amassado. mas não reclamamos. o frio é inclemente e levanto a gola do meu casacão, abençoado casacão de Paraty, filho único, macio e fofo e preto. calça preta também, sapato branco, imundo e surrado. mas de uma coisa não posso reclamar da noite, a cidade é silenciosa, sem o barulho dos canos de escapamentos de caminhão e das sirenes estridentes da ordem e da justiça. mas a cidade, na madrugada, é suja, e fede; o fedor do suor velho dos travestis fazendo ponto na frente dos motéis baratos, do lixo dos passantes diários, da escória revirada pelos catadores, os sacos abertos e pútridos nas sarjetas molhadas de chorume, nas sarjetas pretas e marrons e identificáveis. e o meio-fio. linear, longínquo, sólido – o único norte de um bêbado, um tempo onipresente pras pernas cansadas é um santuário violado pelo vômito dos vagabundos e pelas sujeiras e poeiras de tantas partes do mundo trazidas grudadas em solas de sapatos. todos as pernas que passaram pelo meio-fio, me pergunto, pernas trabalhadoras às 5 da manhã esperando o ônibus pro trabalho, pernas de namorados passeando tarde adentro e minhas próprias pernas vagabundas, agora, sem casa, às duas e cinquenta e três da manhã de sábado que ainda é sexta.

atravessamos a plataforma ainda em silêncio, as bocas caladas ou pelo frio ou pela sede ou pela fome, ou pelo cigarro, e a minha bituca de tão gasta me queima os dedos, a jogo no trânsito (inexistente) lá embaixo. um carro passa solitário na pista de quatro faixas, um pequeno rei cosmopolita ante a esse grande e vazio reino de asfalto. o silêncio é tanto ou a minha concentração é tão grande que escuto minhas veias pulsando e, ainda pior, meu estômago roncando. meto as mãos no bolso em busca de calor e penso como poderia estar em casa, quente, frente ao fogão escutando o barulho da manteiga derretendo em uma panela, amaciando uma carne dura e velha de geladeira e fritando tudo, o cheiro da manteiga rico e leitoso, engordurado, colocando uma carne apimentada no pão, tudo quente e reconfortante e com gosto de casa – e descer tudo com vinho quente com canela, o sabor a princípio doce mas depois apimentado da especiaria mais cobiçada e meiga e sagrada da face da terra. lamber os dedos, raspar o caldo da frigideira com um pãozinho italiano velho, duro. porém, estou na rua e nada está aberto, a não ser os botecos de baixo calão e as barracas tristes de rua da zona do baixo meretrício, barracas tristes, tão tristes quanto as putas sujas, gastas pela poeira do Grande Senhor Tempo, tempo de todas as coisas. No máximo comerei um cachorro-quente de um lugar mal iluminado, a luz fraca pendurada em um fio, rodeados por todos os outros bêbados safados que precisam de larica pra aplacar o fogo que a birita lhes provoca nas entranhas.

vamos adentrando a zona, as luzes vermelhas apetecem os olhos e um sorriso se esboça na boca do J., ele que já muito bêbado ainda quer cantar e dançar mesmo sem ter um tostão no bolso. o bar mais da esquina – aquele escuro e escroto, com garotos muitos jovens para estarem bebendo, toca música da jukebox: todas são predileções adolescentes, músicas pesadas e angustiadas que só umas jovens almas dessas podem encontram alguma espécie de conforto. quantos desses jovens beberrões são jovens Joyces que se estragam, que definham pouco a pouco nesse vinho barato de garrafa de plástico, nesse vinho da juventude? não sei. vejo um gatinho, encolhido de frio na porta de uma casa, um gatinho sujo e pulguento, mas ele resiste às pulgas e não se coça, gatinho abençoado, gatinho buda mas magrelo. ele ronrona, feliz ainda que na miséria e alguém grita mais ao fundo e quebra uma garrafa. os bêbados dançam e eu não posso mais me zangar com eles, pobres vagabundos iluminados, suas vidas tristes desperdiçadas nas garrafas, meus companheiros meus espelhos, são todos felizes, bebendo pra esquecer, são todos feliz esses pobres diabos nascidos pra morrer, como gatinhos sarnentos, abençoados sob os olhos de Deus e de Krishna.

talvez estejamos todos sob os olhos de Shiva, o destruidor que destrói para construir algo novo, o transformador, o Mahadeva, o Shankara e o Shambo. E adentramos mais a zona, as putas flertam com os meninos e os carros passam. Um rapaz passa com um menino e a esposa, nos olha com olhos de mãe e pai, sem vergonha mas com carinho, cuidado com o estranho, o olhar samaritano. abençoados sejam os pais e mães nas ruas que cuidam de nós como ovelhas perdidas que merecem atenção. minha garrafa de cerveja quente, compro outra numa birosca meia-porta, cujo dono se senta, solitário, iluminado apenas pela máquina de caça-níquel. a névoa é grande da fumaça de cigarro e meu dinheiro se acaba, vou contando as moedas até a próxima dose. lembro do Kerouac, o velho mestre beatnik, o on the road da minha alma adolescente, a minha desculpa e glória por todos os vícios cultivados. grande Kerouac, salve salve, seus textos – vômitos da alma – poesia e prosa e haikais sem vírgulas sem pontos sem fôlego. que mister Jack me dê mais uma força pra essa noite de fome de frio e embriaguez, pois o caminho pra casa é longo e não estamos nem perto de voltar.

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