um café, um cigarro e a conta

– sentar-se à mesa

partilhar uma refeição é um ato de carinho, amor e de perdão. não há nada mais triste do que sentar-se sozinho à mesa, comer em silêncio, ou então partilhar a mesa com um completo estranho em um lugar árido e coletivo, como um refeitório ou um shopping center.

compartilhar esse momento “fast-food” com um estranho não é uma experiência – a começar pela comida, que mal assim pode ser chamada: um amontoado de químicos, conservantes e gorduras, glútens, saturados e desnatados – sem tempero e sem amor, sem sal da terra – em um momento rápido e em um lugar inóspito. não há cumplicidade, nem risada, nem respeito e amor pela comida.

o ato mágico de partilhar a refeição começa na cozinha. cozinhar é um ato divino de poder sentir as texturas, os sabores, temperar, se arrepender, chorar e amar por ter o dom e a sina da mão leve pro risoto e da mão pesada pro feijão. a cozinha é o templo, e todo cozinheiro que se preza chama os convidados pra um petisco antes da comida e um trago de algo alcóolico.

após o início dos preparativos, paciência e ansiedade. uma refeição completa deve ser longa, se possível interrompida só por uma soneca. uma refeição que demora a ser preparada e demora a ser comida, uma refeição cujas etapas são devoradas ao longo de um dia inteiro. uma mesa redonda, rodeada de amigos, muita risada e bebida, sem preocupação com louça pra lavar e hora de ir embora.

uma refeição completa deve ser finalizada com sobremesa, café, cigarros e cachaça (ou conhaque). um ato completo, um ciclo de bom humor e de alma, pra quem cozinha e pra quem come.

– partilhar uma cerveja

ao menos, no brasil, sentar-se no bar em plena terça-feira à tarde não indica sinal de alcoolismo nem de vagabundagem. convidar um amigo para uma cerveja não significa, necessariamente, que cerveja em si será consumida.

uma experiência antropológica: em uma mesa de plástico, numa calçada morna, uma “cerva” não é só um alívio pro calor e pra sede, mas também é uma desculpa pra um papo com aquele amigo que se guarda perto do peito. quem vai ao bar sozinho, toma cerveja no balcão, cara a cara com o garçom, pode apostar que bom do coração não está.

aquele sem companhia ou bebe por depressão ou por necessidade. aí, este que bebe, sozinho, ou está doente da cabeça ou muito solitário. o ato de chamar e partilhar uma cerveja vai além do gostar ou do precisar. tomar uma cerveja boa é, claro, um agrado ao paladar – mas para o bom papo com um bom amigo, não é necessário ser connoisseur dos sabores do lúpulo e do malte, uma cervejinha naquela birosca de tradição já basta.

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