peixinhos dourados

“sonham os peixes?” me perguntei, outro dia, enquanto olhava o ir e vir das carpas num lago de águas rasas. aquilo me inquietou de tal maneira que me senti incomodada, de tanto que remoía esse pensamento. depois, ao chegar em casa, de madrugada, pensei no meu aquário de infância. tentava me lembrar, naquelas memórias de criança, de ter visto os peixes parados, ou de olhos fechados. não podia lembrar, nada vinha a mente. pra mim os peixes sempre nadavam, sem parar. acho que pensava, quando criança, que eles me eram companheiros, me acompanhavam nos medos do escuro e da noite – mantinham-se de olhos abertos enquanto meus olhos encontravam-se abertos, e dormiam apenas depois de garantirem que eu também dormia. eram vigilantes do meu sono pueril.

porém – olhe só – apenas depois de velha que descobri que peixes não tem pálpebras. dormem, mas nunca fecham os olhos. param de nadar, para dormir, mas nem sempre a noite. muitas vezes de dia, recolhem-se no fundo ou no topo d’água, de modo descansar. e sonham! tem sonhos com as imagens que viram, as situações que viveram, os cheiros que sentiram. não tem movimento rápido dos olhos, mas sonham. sonham com formas, cores e seus maiores medos. lembram-se.

sou carpa.

Advertisements

now, your turn!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s