(um choro)

depois de tantos anos das minhas portas fechadas, fui forçada a abri-las. trancadas elas estavam, guardando dentro todo o ar velho e a segurança. mas abri as portas. abri para vê-la do outro lado, em prantos, as malas prontas. em meio aos soluços ela me disse: “estou tão só. estou tão só.”.

e vi no momento-tarde-demais que havia se passado todo esse tempo negligenciado entre nós. a convivência humana havia estagnado entre um agir robótico e frio, entre um tosco e sombrio apartamento. não restava nada mais lá além das lágrimas dela, meu choro engasgado e o silêncio do inverno frio.

“estou tão só”. e estávamos. as duas. creio que eu sempre estive, porém ela não. antes ela ainda tinha uma ilusão acompanhante, uma esperança insistente que agora morrera. sobrara só aquela sensação de peixe neurastênico e claustrofóbico, aquela vida de aquário: fechada em paredes de vidro, sempre as mesmas pedras, as mesmas estátuas… comida de manhã, luzes artificiais a noite. nadando, nadando sem propósito a não ser manter-se viva.

“estou tão só. estive só todo o tempo. morreu meu sonho. estou de malas prontas, vou embora. não agüento mais estar tão só.” que direito tinha eu? nenhum. abri então a porta da rua, deixei-a ir. fechei as portas e as janelas agora, fechei tudo. deixei-me ir. estou tão só… como desejo estar.

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