Juventude mtv (iê iê iê sou mais indie que você)

Encontrei recentemente um casal de ex-conhecidos. Encontrei não, veja bem: eu estava no ônibus maso-menos lotado, sentadinha e os vi entrando. Abaixei logo a cabeça, folheando meu exemplar de Jane Eyre (de Charlotte Brontë). “Evite o contato visual” é meu lema sempre. SEMPRE. Detesto esbarrar com “colegagens” do passado e da vida. Enfim, o rapaz – que estudou comigo – não me reconhece desde sempre. Cometi o erro uma vez de encontrá-lo numa festa e cutucá-lo e ele só fez cara de “hã?” e a namorada, de Blasé.

Ele tem cara de lerdo, desde sempre. Na nossa infância partilhada em sala de aula, ele dormia em todas as aulas e tirava zero nas provas. Pelo que me consta hoje em dia – o mundo é um ovo, então vários conhecidos também são conhecidos dele – ele adora beber o máximo possível e anda na coleira da namorida. A marida, como dizem na cena, faz o estilinho blasé: muito branca, meio pin-up nos acessórios e muito indie na magreza. porém, inegavelmente Tijucana na falta de sal e açúcar. Picolézinho de chuchu típico: gelado e sem gosto, porém metidinha a besta.

Enfim, pararam na minha frente, em pé, um ao lado do outro. Meus olhos estavam no Jane Eyre, óbvio, mas meus ouvid afiados. A aprendiz de Mari-moon,coitada, se acha a coisa mais preciosa do mundo. Fez questão de reparar no frizz do cabelo da menina à frente, no banho de kolene da outra e na gordura da moça que sentava com a filha e as sacolas de compras. Comparou essa gorda à uma amiga também gorda, falando que o Fred ou o Fudêncio (não sei qual era o nome dele, afinal toda essa geração só tem apelidos, esdrúxulos e/ou americanizados), atual namorado dela, agora na escola de belas artes em breve iria trocá-la com seus peitos caídos por uma menina bonitinha de skinny jeans, “estilo foxy-art-bitch”. Juro que ela falava assim mesmo. “Whatever”, ela dizia no final de cada frase. A condição de seu exterior cool e superior só permitia que ela pontuasse suas frases com palavras em inglês. Ainda com os olhos no meu livro, fiz cara de ¬¬.

E o menino concordava e retrucava, no seu estilinho too-cool-for-school pobre: camisa descolada da renner, cavanhaque, cabelo levemente desgrenhado. Ele só falava quando necessário, mas era concordando com a guria, se colocando no topo do mundo. Pobres coitados! Tão legais! Tão ricos, chiques e franceses! Esqueceram-se – pobrezitos! – que estavam naquele momento dentro do mesmo 456 junto dos outros reles mortais, indo da Avenida Suburbana para a Lapa, tomar uma cerveja em uma boite de baixa qualidade – de um subúrbio para um submundo – e não dentro da limosine com as amigas emergentes, tomando champagne à caminho do Hilton Hotel.

Eles se achavam, agora cutucando a menina que brincava com sua boneca maltrapilha. Faziam tiradas e comentários sarcásticos. Oh, que engraçados! Dentro do sitcom pessoal, da novelinha de suas vidinhas, roteiro esburacado e ô, tão irônico. Te juro que, quando levantei os olhos e os olhei pelo espelho da janela, as caras deles eram de quem ouviam as risadas gravadas da platéia

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