fragmentos

“olha essas fotografias antigas aqui comigo, minha filha… pega aquela caixa e vamos arrumar as fotos por ordem de tamanho. tem tanta coisa aqui que eu não recordo mais! os cartões postais a gente lê a dedicatória e coloca naquela outra caixinha ali, aquela menorzinha.

pois é, todas essas fotos da mamãe e do papai! olha aqui o meu avô… essa aqui sou eu, viu? quando criança! não fui uma criança linda, gordinha? *risos* até ouso dizer que estou conservada até hoje, não estou?

ah, meu falecido marido. olha só esses cartões e cartas dele… ele viajou o mundo todo: egito, américa, alemanha. e como era caprichoso! toda carta uma declaração de amor diferente, contando seus sentimentos, suas confissões de saudade. como ele gostava de escrever! como era amoroso! mas não podia culpar-me, não é, afinal, escolheu ser capitão de fragata por si mesmo… era sua paixão.

agora este outro cartão aqui. tia airta. morta há muito tempo já, que deus a tenha. esse? tia helena… postal do rio grande do norte com uma foto 3×4 colada. como ela era nova e linda, não? e como tinha consideração. criou essas crianças todas na boa vontade e nada mais. morreu a pouco, uma pena. e este outro aqui? consegue decifrar a assinatura? ah, sim… cartão de congratulações pelo meu casamento, da tia antonieta. morta já faz mais tempo ainda. mas engraçado encontrar isso aqui, tia antonieta nunca aprovou meu casamento…. e, para falar a verdade, eu nunca gostei dela também. ela era mesquinha e nada de bom saia de sua boca.

e estas fotos das férias em marambaia? que bonitas. olha o seu pai como era magro e de cabelo viçoso. seu tio era dentuço, olha! e o meu cabelo? nossa… parece que enfiei o dedo na tomada! *risos* era moda na época, te juro. e esse postal aqui? de são paulo? quem estava em são paulo em 79? ah! a falecida dona laura! não me lembro muito dela, não me marcou em vida. e que cartão feio, deus! *rasga* me ajuda aqui, minha filha.

quantos espíritos. o tempo passa… como isso acumulou! vamos guardar só os bonitos.”

***

hahaha isso MUITO me consola. fazer as merdas todas em vida e em morte também, ou não, ou ser uma pessoa atenciosa, apaixonada, ou até mesmo simplesmente reservada e apagada – bobinha… não importa… no fim das contas, você vai morrer, vão zombar do seu espírito em volta da mesa de centro e seu cartão postal só não será rasgado e jogado fora se ele tiver uma figura bonita na frente!

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