todo dia

Observo o professor em seu palanque. Última fila. Uma multidão de nucas atenciosas à minha frente, compenetradas. Raios de luz adentram o cômodo pelas grandes janelas laterais, iluminando idéias e discurso. Assim, como um pavio, vejo o mestre aceso. Suas mãos cortam o ar que, por ilusão, é sólido. Seus gestos apontam, esfaqueiam, ênfase!, mas suas palavras saem mudas e em câmera lenta. É epifânico e cinematográfico. A sociologia de Durkheim já não me interessa. O que atrai minha atenção são os olhos semicerrados, o professor que queima em uma chama branca e fria, um facho de luz branca, muito branca, bem em cima de sua cabeça, superexposto. Etéreo, quase divinal.

Após esse pequeno momento, me levanto, vou ao lado de fora do hall, encosto na parede, perto do cinzeiro. Observo um garoto que exala sua fumaça, entediado, e fico procurando formas nas nuvens. Nada. É um bom momento para assimilar o dia, então penso nesse pequeno momento de agora pouco, na divina providência e no tempo em que deixei a fé pra trás. Já faz bastante tempo, mas é muito irônico como abomino todos os dogmas do meu passado mas, ainda assim, me agarro a vestígios. Abuso do bom e velho “ai meu Deus” em momento de choque, “Jesus!” em momento de susto e dessa bendita fitinha aqui, no meu próprio braço. Um fino, esgarçado pedaço de fita santa, seus nós e meus desejos.

A história da obtenção dessa fita eu já não me lembro. Feriado, santo ou não, é só mais uma folga. Enfim. Só me lembro dela estar ali, desde sempre. A fita. Os desejos, porém, não esqueci. O quão impróprio é desejar desejo a uma fita de santo? Creio que não seja, afinal, quantos santos pecaram antes de serem santos? Tomo a liberdade de considerar, também, minha inocência e santidade. Mas a fita… está prestes a se desfazer, depois de tanto tempo, essa besteira. Realizará-se o meu desejo? Creio que não. Seria tudo muito fácil se fosse assim e tenho idade suficiente para não acreditar nas facilidades do mundo. Sendo assim, não há mal algum em revelar o que foi pedido, quebrar a supertição: pedi amor à tua pessoa, desejo ao teu corpo. Amarrei o primeiro nó enquanto pensava nos teus lábios partidos, como romã perfeita, em duas metades simétricas (e de mesmo gosto). Retraço agora, aqui, encostada na parede, meus próprios lábios com um dedo, em gesto silencioso, como se assim pudesse reter a sensação do teu beijo neles… Braços imaginários continuam a fantasia e me abraçam, bem torneados. Arrepio de leve.

O segundo nó, amarrei desejando a felicidade eterna. Não gosto de milagre pequeno, não gosto de modéstia. Afinal, para quem viverá só mais 20 ou 25 anos, a eternidade não parece muita coisa. O terceiro nó eu nunca dei, não por falta de pedido, mas meio que por falta de vontade. Deveria ter pedido amor, mas aprendi que, como quero um milagre e não um dos trabalhos de Hércules, melhor pensar algo mais. Então, amarrarei o terceiro nó… Pedi teu corpo novamente em minha cama, o fim do seu comodismo crônico, o fim da minha ilusão ridícula…

Todas essas coisas, amarradas nesse fitilho, toda uma vida aqui, nesse pulso. Isso me leva a perceber que, no fim das contas, pouco importa o meu não-cristianismo tolo, ingênuo, você e eu. Há um outro propósito. Percebo que amarrei em mim algo muito além da tua boca vermelha, sexo, desejo, sorriso: amarrei aqui micro-viéis de esperança…

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