terceiro dia

O pôr do sol é tudo que vejo. Céu pintado de laranja e sombra, por trás de óculos escuros. Enterro os dedos dos pés bem fundo na areia, vejo meu corpo virar espuma. As ondas quebram, fazendo som de concha, gaivotas gralham como velhas rindo, duas ou três crianças gargalham. O riso das crianças é o mais bonito e libertário, invejo essa percepção da infância. A praia está semi-deserta e vejo um casal que se beija no mar, lá longe, pequenos pontos entrelaçados no ponto de fuga azul, e um amigo que descansa esparramado na toalha.

Sinto falta do calor do sol e o vento corta de leve meu rosto, despenteia o meu cabelo. Fora de cena, como sempre, me encontro em pé pensando sobre o nada. Me sento na areia fofa e olho a água cristalina e vou bebericando o resto quente de cerveja da lata. Desenterro duas ou três conchas. Me espreguiço mesmo sem ter sono, cato as conchas, me estalo, esqueleto cansado de tanta folga. Alcanço um Carlton já aceso, pela metade, e trago na calmaria. As crianças passam, correndo, e sinto leveza de espírito, quase podendo tocá-lo, segurá-lo por viés de ouro, com meus dedos.

Abro o livro de Caio F. que trouxe comigo, sem medo de molhá-lo. Descarto a cerveja e o cigarro, despeço-me do meu pudor e da minha calma. Leio citações de rir e de chorar, pincelo as melhores e leio pro vento e pro mar, em voz alta, e ambos me respondem com suas respirações rítmicas e eternas, imutáveis. Penso no vai e vem do mar, por falta do que refletir.

Sinto melancolia fora de hora. Penso em tudo que deixei em casa, penso na saudade e no que é saudade, e concluo que, na verdade, nada me faz falta, nada do que deixei pra trás. Abraço a noite que surge, abraço a meia-luz do poste, confundindo memórias inventadas e fatos, presente e passado. Sonho em deixar tudo de lado, sair sem fazer a cama, como quem foge de casa. Nada do que ficou, entre camas e armários, tetos e apartamentos, realmente me interessa.

Porém, sei que amanhã embarco, sei que vou, resignadamente, de mala e cuia, retornar. Não me culpo. Sei que o que me priva de um mundo novo e louco, no fim das contas, é o comodismo de um emprego sem graça, uma paixão falha e todo tipo de desfuncionalidade. Checo, de cabeça baixa, a carteira e vejo meu passaporte de volta pro regresso, pro cinza-passado: a passagem, bendita passagem, de volta, para amanhã às 16 horas.

É uma corda no pescoço. Cato meu chinelo, não acordo meu amigo. Desço a rua. Quero um trago de vinho, agora, e Miles Davis, quero devorar feliz pão e queijo, e beber ainda mais vinho, no melhor dos humores, nessa espécie mirrada, nessa re-encenação pessoal de uma última ceia…

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