Cena

O momento parece um contrato de assassinato, no topo de uma passarela de pedestres sobre a rodovia 106 e seu tráfego intermitente e ensurdecedor. Fim de tarde e eu observo o asfalto, como sempre, cabeça baixa. Você chega como a viúva traída de um romance de Raymond Chandler, seu caminhar lânguido e rebolativo, e se instala do meu lado, o assassino profissional, como quem observa a paisagem, como quem não quer nada.

Eu não olho pra você, só escuto o seu longo suspiro. Abaixo, pego a garrafa próxima aos meus pés e tomo um amargo e desconfortável trago. Balanço a garrafa contra a luz, checando o que me resta, a garrafa verde e barata e provavelmente inapropriada.

“Vinho de mercearia?”
“Infelizmente, instalaram-se os tempos de pobreza.”
“Você estraga sua vida bebendo, sabia?”
“É, sabia.”

E passo a garrafa para o lado, gargalo apontando para o seu rosto. Você não resiste aos seus instintos e aceita, tomando um gole, fazendo careta. Devolve-me a garrafa. Abre a boca, e fecha. Debruça-se mais pra fora da grade da passarela, sentindo a fumaça que a gente cisma em chamar de brisa. Tira um maço de Marlboro do bolso interno da parka, pendura um cigarro nos lábios. Observo o seu prazer de uma longa tragada, exalando a fumaça, e mais outra tragada. Você prende a fumaça e me passa o cigarro, como uma oferta de paz.

“Como está a sua vida?”
“Está indo. Estou trabalhando…”
“É. Estou sabendo.”
“… no escritório do Miller.”

Miller. Miller é o nome que me persegue, minha sina, o nome que grito em meu pesadelo, no momento de ódio, que falo por entre dentes enquanto viajo de ônibus pela cidade, em 30 segundos de raiva cega aleatória. Cheguei à conclusão de que passo 75% do tempo pensando em maneiras ridiculamente sádicas de como matar Miller, de como degolar o cretino do MILLER (falo o nome dele SEMPRE com uma ênfase de escárnio), o maldito do seu amante. Para falar a verdade, penso mais em Miller do que penso em você. A sua distância não me incomoda o que me incomoda é o surgimento dessa pedra chamada JP Miller no caminho da minha vida, do meu hedonismo.

“Eu não penso mais em você, sabia?”
“Se não pensa, porque telefonou?”

Pergunta sagaz e especialmente bem aplicada. Obviamente penso em você, afinal sobram-me, todos os dias, os 25% de tempo em que não estou vidrado em maquiavélicos planos de como esfolar Miller vivo. Pouco você sabe que constantemente imagino cenas de beijos entre vocês dois e que me incluo brutalmente nessa sádica fantasia, quebrando costelas e maxilares, derrubando-o em sua magreza escrota. Imagino esfregar a cara de Miller no asfalto, depois na merda e depois bicar o seu sorriso branco cheio de dentes, de burocrata. Cara mais babaca!

“Você sabia que o Miller é um merda? Me disseram ainda que ele fode mal.”

Você suprime um sorriso amarelo e isso me dá uma pontada ridícula de prazer: pensar que o grandioso paparicado almofadinha Miller é um brocha e que minhas palavras te ferem. A pontada logo vira uma onda que se espicha até meu córtex, espalhando-se pelos meus membros. Sinto-me junkie, desejo outra dose, mas antes da minha língua ferina lançar mais uma chicotada, tua fala mansa me desarma.

“Estou apaixonada por ele. Está na hora de você me esquecer. Não podemos ficar assim.”

Ah, crua verdade que é por todos sabida. Velho não-segredo, reprisado já há meses, mas que ainda assim me afoga. Eu sei que o nosso amor findou, me repito esse mantra fatídico e “supero”, dia sim, dia não, essa história com livros vagabundos de auto-ajuda e sessões solitárias de meditação com chá. Porém, a navalha da verdade jogada na cara ainda corta a minha razão como faca quente na manteiga, e tudo que consigo fazer, pra reagir, é uma imensa cara caída, e abaixar a cabeça. Estou resignado. Meus olhos estão marejados e levanto o olhar até o nível dos seus olhos, e eles estão impenetráveis, com pequenos pontos de mágoa na íris, mas ainda assim duros, como quem chuta o gato que mia na porta, interrompendo o sono.

E as suas palavras ricocheteiam como bala dentro do meu crânio, sinto a tristeza azul e depois a raiva ruiva, num só gancho de esquerda na boca do estômago. Cerros os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos, prendo a respiração até o ponto de explodir. Fico roxo. Relaxo os punhos. Vejo tudo preto de ódio.

Então esgano o pescoço da garrafa desejando que fosse o seu pescoço.

E depois arremesso a garrafa nos carros, lá embaixo, ouvindo o barulho do estilhaçar do vidro, desejando que esse estilhaçar fosse o dos meus ossos, e que os cacos fossem meus membros e pedaços, atropelados, lá embaixo.

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