gêmeos

penso constantemente nessas coisas existenciais na intimidade do meu banho, enquanto lavo os cabelos pra sair no fim da tarde, escutando versos de Sufjan Stevens – “all things go, all things go…”. Começo o pensamento debaixo do chuveiro e continuo, enquanto me dirijo à casa de um amigo para uma noite de vinhos e filmes e depois mastigo mais e mais os mesmos versos, bem no meio da festa, na sala de estar, na feira de vozes e sons que se circulam pela madrugada.

todas as coisas se vão, certamente. superei o medo da morte faz um bom tempo, mas no momento às 17:47 que me enrolo na toalha, penso no que deixarei para o mundo. aí penso na inutilidade da minha existência. realmente, pensem: o que deixarei? de que me valeu uma vida rodeada de amigos e sendo a melhor pessoa possível, a pessoa mais engraçada? um funeral lotado e creio que só.

mas não pensem que me coloco pra baixo pensando tal coisa: não o faço. acho ótima a minha vida de vagrant pelos interesses do mundo, uma não-linearidade excêntrica, diletante eterna, amorosa e intelectualmente – como uma eterna pilantragem. não faria diferente nem um só segundo. às vezes até gosto de passear pelo meu lado egocêntrico e elogiar maniacamente as pequenas coisas que considero qualidades de mim mesma, como esse desapego que acabei de citar. não faz mal nunca.

só que sempre volto à dualidade. por exemplo, enquanto mastigo vorazmente as páginas de um novo livro, penso: “que coisa grandiosa, que maravilhosa obra!” e vario meu humor de acordo com a temática dela: me sinto espiritual ou bum ou triste ou violenta ou qualquer outra coisa. me integro. porém, depois de um tempo, abandono os ensinamentos de tal obra e parto camaleônicamente para uma nova personalidade literária e penso: “de que diabos me adiantou ler o livro anterior?”

essa é A única pergunta frequente, na verdade. onde é meu lugar? para que essa bagagem cultural? serve para que, citar meia dúzia de assuntos em uma conversinha na mesa do bar? bem, sei que ao menos um deles me serviu, obviamente, para encontrar o bordão de minha vida. faço de Kerouac minhas palavras quando cito: “Não tenho nada pra oferecer além da minha própria confusão.”

e nessa confusão complexa de achar meu lugar ao mundo, deito a cabeça no colo de minha mãe e divido minhas neuras. mamãe, pobrezinha, tenta remediar, mas não adianta. me reduz a um verso de Augusto dos Anjos. culpa a má influência do zodíaco pelas minhas neuras quando diz “deixa disso, menina. isso é coisa mesmo de geminiano…”

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