efeitos

eu gostava de me sentar na sala de estar dele, nas esteiras chinesas ou no futom macio e olhar o movimento de entra e sai do apartamento. a porta nunca estava trancada e havia esse constante fluxo de fantasmas, rostos pálidos, mais à noite do que de dia: eternas vozes em conversas longas e loucas, uma central de telefonemas ao vivo e à cores cheia de bocas e dentes, braços e becks e discos de vinil.

acho que havia três anos que não se via a chave da porta da frente – a porta sempre aberta havia se tornado corpo sólido e indesejado, ali encostada poerenta no batente, ficava silenciosa na sua eternidade arcaica. enfim, enfim. o canto dos sapatos estava sempre amontado de pares e pares e a sala de conversa estava sempre cheia de bichas e junkies e poetas fajutos, poetas bons, pseudos-qualquer coisa descalços, às vezes desnudos. Alan era uma boa alma e sua casa era como sua mente, aberta e muito louca, caótica, frenesi. me lembro de sentar e olhar as pessoas que bebiam café demais e ficavam pelas madrugadas prostradas, jogadas em todos os cantos do apartamento, sujando xícaras na cozinha e batendo as cinzas de cigarro nos vasos de planta sem nunca dizer chavões.

a casa toda cheirava a fumaça de cigarro e incenso barato. na hora do jantar a fumaça se misturava a suor humano, se suava muito na casa do Alan enquanto se dançava bebum de vinho, doido de ácido, chá chinês ou sopa. nunca vi ninguém trazer algo além de palavra pra dentro daquela sala e, ainda assim, tudo prosperava. a casa cheirava a cidade e metrô, a gente e passeio no parque (com picnic, cachorro e sorvete). era tudo delirante, como uma infusão de grama molhada, vapores humanos e banho de sais.

nesse hospício, como iniciante, eu só observava em silêncio as grandes figuras. lembro de Waldman e sua barba esquálida, devaneios sobre o nirvana da noite, repetindo seu mantra bhikkhu e bebum, debruçado em balcões no centro (“Mais uma dose, companheiro. Mais uma…”) e Joana Johnson, volátil, sentada em posição de flor de lótus, falando sem parar sobre seus melhores novos eternos ídolos da última semana, dedos no ar, emendando uma citação em outra, ainda assim sem entediar e caíndo no chão, esparramada, cantarolando uma canção de bob dylan junto do radinho de pilha que ninguém sabe quem ligou.

e eu ficava lá, olhando os cabelos negros de Alan, seu bigode grosso, sua figura sem camisa sem calça sem sapatos, só cuecas e meias brancas, às vezes um lenço vermelho em volta do pescoço, longos dedos alisando os lados do bigode, ouvindo com a cabeça apoiada no punho (“hu-hum” e um leve chacoalhar de aprovação”) e falando como um profeta, um Sidarta moderno da selva de aço, profetizando sexo, exalando letra, inspirando música. ele nunca erguia sua voz judia mansa, mesmo quando lutando pra recitar um poema entre as buzinas e as ambulâncias e os que pediam ininterruptamente um minuto da atenção, ou junkies que queriam uns trocados – ele só falava, bem menos do que ouvia, em cima da mesa, braços abertos. abria um livro e iniciava um sarau. saquê branco, ervas, vinho do porto – maconha, maconha e álcool.

quanto a mim… não tinha nada comigo, só meus ouvidos. ouvi tudo e todos e não sei se aprendi pois, na verdade, não sei se era capaz de aprender. estava ali como ouvinte, como aprendiz de Alan, mas queria que, no fundo, ele me fizesse e me ensinasse o jeito dele, o que nunca seria possível: ele se copiar em outro alguém, o universo não suportaria tamanha façanha. tinha meus pensamentos, poesia instantânea, porém era rápida e rala e sem graça como mioho. tinha medo também e suava medo todo o tempo, materializando silêncio.

então, na louca sala de Alan eu fiquei ao longo dos anos como um móvel: parte intocada, parte presente. 1/4 necessária, 4/4 totalmente esquecível. em longos anos entre poetas desencarnados e corações abertos eu só guardei nos meus bolsos benzedrina e angústia – e consumi ambos, letalmente, em altas doses.

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