Barbosa

ele era um garoto simples. gostava de passar desapercebido, sem estardalhaço. glamour, fama, reconhecimento público – nada disso o apetecia. mas de nenhuma maneira ele era entediante. era muito inteligente de todas as ciências, bem cotado nos círculos intelectuais: o que nunca fazia ele sentir-se solitário. talvez fosse sim pensativo e um pouquinho melancólico, mas essas eram as características que o faziam charmoso e deliciosamente genial.

seus amigos ele contava nos dedos – eram poucos, mas eram bons. fiéis. estavam lá para o nosso jovem rapaz em qualquer situação… esses bons amigos acompanhavam-o desde a infância e não era possível negar o valor inestimável da presença deles – mas, depois de todos esses anos de convivência, a amizade infelizmente havia caído num comodismo confortável, numa rotina desinteressante. O rapaz sentia falta de alguém disposto, alguém novo que viesse trazendo as partes do mundo que sua inteligência sempre matemática desconhecia: os caminhos do coração.

sua falta de experiência no amor não fora causa de problemas nunca até o final de sua faculdade. ele, na verdade, sempre fora muito prático. sua vida de análise científica exigia resultados rápidos e isso moldara sua personalidade um pouco frugal no campo dos sentimentos. isso, claro, até o dia depois de sua formatura.

naquela manhã ele acordara internamente diferente. era estranho não ter que levantar e estudar, olhar para cara de professores enrugados nos seus terninhos de tweed, andar pelos corredores brancos e desinfetados, nem sentir o cheiro de mofo no concreto úmido da cafeteria. ele estava livre de responsabilidades. estava completo na sua ciência, diplomado. seu cérebro sabia tudo de tudo e suas pernas estavam ansiosas pra novos mundos conquistar. ele podia quase se sentir vagando pelas páginas de John Fante. por um momento ele perdeu sua calma científica e abriu a janela, gritando “eu sou arturo bandini!”, revivendo o clássico “Pergunte ao Pó”. tomou o livro, colocou-o numa mala com meia dúzia de outros pequenos pertences e partiu rua afora, pra sentir o gosto do mundo.

seu cérebro matutava, o sol corando as brancas bochechas. aonde procurar essa nova ciência? o que fazer quando encontrá-la? testá-la? impossível. isso o deixava preocupado, não poder analizar, dissecar essa nova experiência… mas sua curiosidade falava mais alto. ele nunca, por simples medo aceitara o fracasso sem lutar.

ele andara, resolvido, até a estação do trem, no limite da cidade, observando o quanto tudo havia mudado enquanto ele estava na faculdade. olhando melhor, talvez ele tivesse passado um pouco de tempo demais dentro de bibliotecas e de seu dormitório. havia novidade demais nas pessoas que ele havia falhado em notar ao longo desses anos. as novidades da tecnologia ele sabia todas – uma pena, visto que ele não podia se apaixonar por uma máquina.

mas agora aquilo ia mudar. ele podia sentir, debaixo da pele, um calor, uma virada em sua sorte. “seu destino está fadado a ser extraordinário”, já diziam desde que ele era uma criança e ele nunca pode acreditar mais nessa declaração. seu destino estava prestes a encontrar algo perigosamente fantástico.

o trem estava lá, quase como que esperando sua chegada. a penúltima passagem fora a dele, no penúltimo minuto para o embarque. ele nunca acreditara em magia antes – era ilógico e irregular demais – mas hoje era o dia da sua mudança.

último minuto. última pessoa entra. o trem anuncia movimentar-se. a sorte fora boa demais com ele, tanto que ele quase não podia acreditar. a magia em pessoa sentara-se do seu lado. uma linda morena mexicana, com cara dos anos 30 e toda aquela graça. “tanta sorte, boa demais para ser verdade” – ele pensara, silenciosamente.

ele tentara então provar dessa sua sorte. começou a balbuciar, sem sucesso, uma apresentação; mas sua mente estava tão alarmada que ele não conseguia nem lembrar do próprio nome. ‘a sorte’ deu um pequeno sorriso, gentilmente achando graça da timidez dele. “acalme-se, rapaz. não me chamo sorte. me chamo Mercedes”, ela falara. sua voz era como a dos anjos e seu sorriso era largo agora, lindo sorriso que estendia humor até seus brilhosos olhos castanhos.

“Barbosa. imenso prazer em conhecê-la”. nunca fora assim antes. nunca, em ocasião nenhuma, ele havia conhecido alguém tão alerta e calorosa. ela sentara-se ao lado dele por apenas 5 minutos e ele já havia perdido todo o tédio que ele nem sabia que havia sentido em todos seus anos de vida. ele se sentia vivo, sangue vibrando junto da melodia da voz dela. ela falava cantando, seus lábios rosados formavam uma potente metralhadora de assuntos, incansável e nunca tediosa. o corpo pequeno dela acompanhava o falar e ela se mexia, encantando-o e deixando-o paralisado.

ela era movida por paixão. paixão pela vida, pela novidade. ela lhe contara que estava ali, fugida de casa. trazia apenas uma pequena mochila com duas mudas de roupas, 200 dólares e uma surrada versão de “On The Road” de Kerouac. estava caíndo com o pé na estrada, procurando se perder para se encontrar. ele disse que estava encontrado demais na vida e procurava, justamente, se perder. parecia um encontro orquestrado pelos céus.

realmente. aquela viagem seria longa e promissora. o florescer no coração de Barbosa havia satisfeito o estranho espaço que a escola nunca pode preencher. Mercedes estava ali agora, pra tomar o domínio dos sonhos e do corpo do jovem garoto. ele estava pronto para mudar. estava completo… só agora, depois de ter visto sua cidade ficar para trás na estrada e o brilho da sua amada lua cheia refletido nos negros cabelos de Mercedes que Barbosa havia aberto mão do seu cargo de especialista da ciência para abraçar, com fervor, a nova posição de estudante do amor.

Advertisements

now, your turn!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s