Mercedes

você bebeu demais e falou demais e agora não tem outro lugar pra ir senão o fundo de outra garrafa. vamos, nos embebedar depois levantar e beber mais. passar vergonha, passar mal, não importa. estamos todos em mesa de bar, entre amigos e entre piadas.

foi realmente uma grande noite, garota. você falou de um tudo, fez de um tudo, bêbada até não poder mais. passou vergonha, mercedes, mas valeu a pena… você se dobrou de tanto rir, das mesmas histórias, das mesmas palhaçadas.

claro que chegou em casa e teve que encarar a família sentada à mesa, olhares de desaprovação. mas não importa… a leveza no cérebro está ótima. se embebedar nunca foi solução de nada mas você bem que gosta mais da sua pessoa bêbada do que sóbrea. se arrependeu, claro, de alguns vexames e alguns fatos que não deviam ser contados então, telefonou pra se desculpar. até mesmo pra dar uma levantada na moral, no EGO, visto que todo final de bebedeira traz consigo sono, depressão e baixa visão de si próprio. os amigos te garantiram que não havia com que se preocupar: menos um peso na consiência.

agora só falta o mundo parar de girar pra você conseguir dormir. e o ventilador de teto gira, no sentido contrário, fazendo enjoar.

É, Mercedes, o dia seguinte te espera. levantar e ir trabalhar, mesmo com torcicolo e dor muscular de uma noite de sono bêbado. o gosto de cabo de guarda-chuva na boca, a dor de cabeça – é ressaca. um par de aspirinas, muita água: velha fórmula que todo bêbado da vida do submundo conhece. o corpo está pesado mas o espírito está ótimo. você se sente bem por ter visto os amigos, respirado ar fresco, ter se livrado do peso do cotidiano fatídico.

só falou o jovem garoto lá. se ele pudesse estar lá, com certeza veria essa sua nova fase: fresca, menos distante, menos gélida. te veria humana! de bochechas rosadas até… rindo até cair das cadeiras, falando, interagindo. mas ele, com aquele frio olhar avoado, provavelmente não teria reparado nada, recatado no mundo de idéias próprias. ele vive em seu próprio tempo. mas você gostaria que ele tivesse estado lá. seria feliz ter visto aquele rosto moreno, sorriso branco debaixo das luzes do bar, bebericando um chopp naquela pacífica moleza.

mas ele não estava lá. ele nunca está lá. mas, afinal, como poderia estar se não foi convidado? maldade, Mercedes. quando ele souber vai ficar devastado… mas é bom fazê-lo sofrer um pouquinho também, afinal, por ele você já gasta seu tempo de vida todo.

e agora levanta, Mercedes. Vai trabalhar… Trabalhar em novos grandiosos caminhos que evitem te fazer trabalhar em coisas que irão realmente resultar em algo útil.

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