Clarissa

todos os dias ela se derretia ao pensar no seu namorado. mal acordava do seu sono leve e já, sem nem abrir os olhos, pensava instantaneamente nele. via as imagens do seu amado por detrás das pálpebras. podia ainda sentir o aroma que ele deixara nos travesseiros e fazia do calor do sol um pobre substituto para o calor do corpo dele, antes ao seu lado.

levantava-se leve, banhava-se. linda menina, jovem, apaixonada. flutuava pela casa, murmurando canções ininteligíveis de amor… pequenas rimas, pequenos versos floreados. tomava o café quente aos suspiros – e franzia a testa ao sentir o gosto amargo da bebida, podendo apenas comparar esse gosto ao adocicado sabor dos lábios do amado. nenhuma sacarina era mais doce do que o beijo dele, nenhum açúcar era mais gostoso.

e, é claro, a ao lembrar do beijo, a saudade ficava insuportável e ela se convencia de que nunca era cedo demais para telefonar. ouvir a voz dele, mesmo que a distância, apertava o gatilho das maravilhosas lembranças na cabeça dela. não que ela tivesse esquecido o tom aveludado de sua voz – simplesmente não cansava de ouvi-lo falar. a voz máscula dele, para com os outros era ríspida e monossilábica, mas não para com ela. para ela, ele contava cada minucioso detalhe de sua rotina matinal, mesmo que essa rotina fosse igual a de ontem e a do dia anterior ao ontem. ele se repetia, mas sem ser monótono. fazia só pelo prazer de encantá-la. ela ouvia, atentamente, como se fossem as maiores novidades do mundo moderno; o aparelho de plástico frio colado à orelha, como se assim pudesse absorver ainda mais os sentimentos que ele emanava.

o som da voz dele era melhor do que qualquer música de qualquer orquestra. os de fora realmente não entendiam. meros espectadores, mortais, surdos demais para ouvir a sintonia do amor. só os apaixonados se entendem. é como um código de casais – uma vez acasalado, a frequência de sintonia se iguala e os outros nunca poderão entender. e quem não entedia, invejosamente, criticava. mas ela não ligava. não havia tempo a perder com as bobeiras que os outros pensavam. só havia o tempo dele com ela, o tempo a dois.

porém, logo ele anunciava, tristemente, que tinha que ir trabalhar. ela choramingava um pouco só pra ganhar mais um minuto de murmúrio apaixonado. mas era inevitável. despedia-se de coração pesado, olhos marejados. o click frio do outro lado da linha aparecia e ela instantaneamente sentia o vazio. se entristecia por um minuto devido a perda mas, logo depois, voltava a sorrir ao andar pela casa e encontrar os pequenos objetos de afeição por ele deixados: um pé esquerdo de meia esquecido, a escova de dente especialmente colocada ao lado da dela. pequenos sinais de afeição e intimidade, reservados apenas pra ela.

e assim ela criava coragem de continuar o dia. sorria seu sorriso secreto e partia para os afazeres do mundo, contando minuciosamente o tempo. enchia a cabeça de lembranças, de fantasias, de histórias… tudo pra se distrair. o trabalho, frente a um amor dessa magnitude, era pequeno e mesquinho. ela ignorava os livros, os afazeres. “o trabalho enriquece a alma”, dizia o velho avô. mas toda essa labuta que o mundo impunha era, pra ela, só passatempo – só uma forma de matar as horas até ela rever seu amado e finalmente poder se sentir rica, rica do melhor tesouro do mundo: beijos e abraços.
posted by Mercedes | 23:35 0 karma | trackback

Rachel

toda vez que a menina o via era aquele estradalhaço! ela voltava, sem nem perceber, à sua fase adolescente. se mostrava novamente sonhadora, avoada. sorria um sorriso largo, sem sentido. quem estava ocasionalmente olhando, não entendia o motivo de tanta graça. só os mais íntimos conseguiam perceber: estava apaixonada. ela negava que estivesse. está certo, está certo… podia não ser tanta paixão, podia ser algo até menor coma uma quedinha, uma paixonite platônica, mas os efeitos eram igualmente arrebatadores. ela estava gostando de gostar.

coração leve, riso solto. ela agora parece constantemente embriagada na presença do rapaz. seus olhos castanhos estão enuveados, pupilas dilatadas de excitação e interesse, acompanham passo a passo as movimentações do cômodo. ela chega mais perto, esbarra nele, finge ser sem querer – só o toque leve de pele com pele já é o suficiente para dar choque. o coração bate mais forte, as palmas das mãos suam… “me desculpe”, ela diz, trêmula, abobada. ele não diz nada. apenas olha com olhar cúmplice e sorri de soslaio.

ele é um rapaz de mistério. fala pouco só pra fazê-la desejar ouvi-lo mais e mais. ele quase sussurra, sensual e despreocupado. são limites sendo testados. ela bebe das palavras dele, observando atentamente os rosados lábios – na sua mente, ela imagina 1001 cenários onde ela podia livremente beijá-lo. isso é o que mais ela faz nesses dias: fantasiar. perde seu tempo criando cenas de namoro e beijos roubados.

nesse meio tempo, ele sorri vendo o olhar perdido dela. entende, mas finge não entender. dizer que também deseja nesse momento faz desaparecer a mágica. que graça tem o fruto do beijo sem a dança da conquista, o cortejo? o jogo deve ser empurrado até o limite máximo do prazer e da tortura. só por isso ele toca na costas da mão dela, fazendo-a pular… ele convida pra uma dança, ela aceita, estupefata. uma mão na cintura, outra na parte baixa das costas. as mãos dela vão pra nuca dele, demarcando território.

de repente o ar fica quente e o cômodo, apertado. ambos desejam que os outros convidados da festa sumam como passe de mágica. a tão curta distância, novas memórias sentimentais vão sendo criadas: aromas de perfumes, a maciez do toque, a aspereza deliciosa da barba por fazer. o hálito é tão fresco e erótico como um beijo – porém não igualmente satisfatório.

a música acaba mas eles dançam por mais alguns segundos, no silêncio. de repente acordam do transe hipnótico do abraço e se separam. infelizmente, já é tarde e ela tem que ir embora… seu coração se parte no momento da despedida – sempre a melhor hora tem que ser interrompida. ele sorri, serelepe. ela, tímida, sente arrepiar os cabelos da nuca. ele fala, no seu sussuro de baixo tom:

“espero ver essa mocinha aparecer mais… nem que seja pra reclamar que eu mato muita aula”

*mocinha desmaia*

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