vejo que cresci pelas olheiras insones que visto. vejo que estou velha por ser aquela pessoa que dormiu de menos e trabalhou demais, pelos dentes amarelados de café e cigarros, tomados e fumados de stress, pela aquela barriga gorda que me cutuca o rosto no ônibus lotado. vejo que cresci pelo mundo que me formou, sem coração e sem tempo, pela solidão imensa que sinto e que não revelo, pelos pequenos causos de ontem que parecem já tão distantes da minha juventude. percebi que cresci pelo meu sorriso, parco, que a rotina não percebe soltar. percebi que cresci, finalmente, por beber como uma pessoa adulta que não tem a inocência de criança, que afoga um mundo cinza, cerveja atrás de cerveja, porque não há escapatória senão essa, escapatória outra que não seja, no escuro do quarto, antes do sono entre expedientes, chorar.
choro agora, depois dos tragos pagos pelo meu salário, lágrimas de gente grande, de coração partido, de sonhos desfeitos, noites mau dormidas. lágrimas de eu. eu só. só eu.